O nascimento em Moçambique, Bolívia e República Dominicana

segunda-feira, 10 de outubro de 2011 as 14:09

Dr. Juan Cid Troncoso, ginecologista-obstetra e diretor há 7 anos do Hospital Maternidade Nuestra Señora de La Alta Gracia, em São Domingo, República Dominicana, participa em Belo Horizonte, até 21 de outubro, do II Curso Internacional de Atenção Humanizada à Mulher e ao Recém-nascido realizado no Hospital Sofia Feldman. Um dos objetivos do Curso é oferecer estratégias e práticas necessárias à redução da mortalidade materna e infantil, consideradas muito altas no Brasil e nos países de origem dos profissionais. Os indicadores brasileiros registram em cada 100.000 nascidos vivos, 74,5 mulheres mortes em decorrência de complicações durante o ciclo gravídico-puerperal. Em 2004, o Ministério da Saúde do Brasil instituiu o Pacto pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal.

Segundo informações do Dr. Juan, na República Dominicana acontecem 180 mortes maternas por 100.000 nascidos vivos. “Os índices estão abaixando. Eu atribuo essa redução às estratégias e medidas implementadas pelo Ministério da Saúde nos cuidados obstétricos em emergências, regulação de normas e protocolos de atendimento, melhora na qualidade de atenção, ativação dos comitês de morbidade extrema, aumento do sistema de redes e a comunicação articulada entre os centros de saúde”.

O obstetra foi indicado para fazer o Curso no Hospital Sofia Feldman pela Agência de Cooperação do Japão/JICA – promotora do curso juntamente com a Agência de Cooperação do Brasil/ABC/Ministério das Relações Exteriores – e pretende levar para o hospital mudanças práticas no atendimento.  Segundo informou, a instituição é referência nacional na República Dominicana e  realiza 700 consultas por dia, 4.000 partos por mês e 25 mil por ano. Tem um índice de 35% de cesarianas, um pouco abaixo do país, que está em 39%.

Dr. Juan  é um dos  dezesseis profissionais de saúde da África, América Latina e Caribe, que fazem capacitação  no Hospital. Além dele, mais um médico da República Dominicana participa do treinamento.  Todos os profissionais do II Curso Internacional atuam em maternidades e hospitais de seus países de origem:  Moçambique, República Dominicana, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guatemala, Paraguai e Bolívia. Um dos critérios usados na seleção para a 2ª edição do Curso foi que os profissionais tivessem participação prática nas políticas públicas de saúde e pudessem transformar de fato o modelo de atenção à mulher e ao recém-nascido.

De Moçambique, um dos 20 países mais pobres do mundo, vieram 7 profissionais de saúde, entre eles, a enfermeira Cecília Mateus, que contou como está a situação no atendimento ao parto e nascimento no país e falou do alto índice de mortalidade materna; em cada 100.000 nascidos vivos, 408 mulheres morrem em decorrência de problemas no parto e pós-parto.

A boliviana, Eva Yucra Tintaya, traçou um perfil do atendimento naquele país, onde o índice de mortalidade materna também é alto; morrem anualmente 220 mulheres em 100.000 nascidos vivos.

Nesses países, as mulheres ainda não têm assegurado em lei, como no Brasil, o direito a um acompanhante no trabalho de parto, parto e pós-parto, nem doulas para dar conforto e, por lá, não existe a atuação de enfermeiras obstetras.

A experiência na República Dominicana

O obstetra Juan Cid Troncoso respondeu a algumas perguntas para nosso site.

P: O hospital tem um atendimento humanizado?

R: Não temos acompanhante de parto, só se a mulher é adolescente ou tem uma patologia grave. O número grande de atendimentos não permite. Pessoalmente, eu deixo o acompanhante estar ao lado da mulher, mas não há lei que permita ou impeça esta ação.

P: Está gostando do curso e de conhecer o modelo de assistência do Hospital Sofia Feldman?

R: Precisamente por isso estou aqui. Para ver de que maneira podemos ir modificando aos poucos, a começar pelos familiares, deixando que participem da gestação e estejam presentes no trabalho de  parto. Também queremos humanizar os serviços.

P: Qual o diferencial do Sofia em relação ao modelo de atenção no Hospital em que você atua?

R: A prática médica em si é a mesma. O que varia é a humanização dos serviços, a prática da integração da família à gestação e parto, do profissional de saúde com as usuárias, que é muito bonita. A gestante também é muito bem informada sobre os processos do parto. A simplicidade no atendimento mostra que é possível fazer mudanças em nossos hospitais.

Mãe(drasta) África

Cecília Mateus é enfermeira em saúde materna do  Hospital Central de Maputo, capital de Moçambique.  Ela tem 36 anos, uma filha, Naila, de 4 anos,  que nasceu de cesariana necessária. Ela veio para o Curso Internacional indicada pela maternidade e pretende ajudar na mudança de modelo de atenção no país.

Outros seis profissionais participam do curso. Entre eles, Elisa Isabel Jaime Chapola, que é a Coordenadora do Programa Nacional de Saúde Materno-infantil, atendendo a uma determinação dos promotores do curso, que incentivaram a participação de profissionais envolvidos com a saúde pública.

Cecília Mateus respondeu a algumas perguntas.

P: Qual o índice de cesarianas em Moçambique e no Hospital Central de Maputo?

R:  Não sabemos o índice exato, sei que fazemos mais partos normais, porque a maioria dos hospitais não tem centro cirúrgico, mas temos muitas cesarianas. Não sei precisar nossos índices.

P: O atendimento é humanizado?

R: Se humanização for isso que vimos aqui no Sofia Feldman, não.

P: O que viu de bom no Sofia?

R: Vi muita coisa boa. A interação entre os próprios funcionários. A relação do profissional com o usuário e do usuário com o profissional e com o Dr. Ivo.  Impressionante como ele é próximo. Lá, eu só conheço o diretor administrativo pelo nome.

P: Na prática, o que diferencia o Sofia  dos hospitais tradicionais de Moçambique?

R: Aqui tem mais aparelhos que ajudam no atendimento. A forma como se faz a admissão por Classificação de Risco é muito interessante, tendo sempre um médico para pronto atendimento das emergências.

P: O que está achando do Brasil?

R: Diferente. Quando falava em Brasil, imaginávamos São Paulo, tínhamos medo da violência. No entanto, aqui em Belo Horizonte é muito tranquilo.

P: Essa experiência muda alguma coisa na sua prática?

R: Na minha prática, com certeza. Mas,  gostaria de mudar alguma coisa no país. Para isso, tem que ter recursos e, acima de tudo, vontade política. A mulher do presidente, Maria da Luíz Quebuza está inaugurando um Hospital Amigo da Criança.

Como é nascer na Bolívia

Eva Yucra Tintaya é médica generalista em Santa Cruz, Bolívia. Ela ficou sabendo do Curso via Internet. Apresentou a ideia ao diretor do Hospital de Yapacani, que a apoiou. A instituição atende a 50 partos por mês e tem o mesmo índice de cesarianas do país, 35%. Após a sua experiência no Sofia Feldman, aplicará o conhecimento no primeiro centro de parto humanizado do país.

P: O modelo de atenção  na Bolívia é diferente do Brasil?

R: A área ginecológica é muito diferente. Não temos enfermeiras obstetras, não temos doulas, não temos acompanhante de parto, só quando elas pedem. Os partos são realizados em posição de litotomia (deitado). O soro, ocitocina sintética, é aplicada de rotina para acelerar os partos. Ainda há parteiras no interior.

P: Esta experiência vai mudar o quê na sua prática?

R: Achei muito interessante a união entre os profissionais, o trabalho realizado em equipe multiprofissional. O trabalho das enfermeiras obstetras e das doulas comunitárias deixam a parturiente mais segura. O curso vai ser muito benéfico, o conhecimento será aplicado no primeiro centro de parto humanizado do país.

P: A que você atribui o alto índice de mortalidade materna na Bolívia?

R: À falta de atenção básica e os  poucos recursos materiais; a aparelhagem que existe é ultrapassada.

Os índices de Mortalidade Materna no Mundo

Considera-se morte materna aquela que ocorre por complicações da gravidez, aborto, parto ou puerpério (até 42 dias após o término da gestação). A Organização Pan-americana de Saúde/OMS  descreve como baixa a taxa de mortalidade materna índices menores que 20 a cada 100.000 nascidos vivos; números encontrados nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Alemanha, Nova Zelândia e Japão.

Define como índices médio, acima de 20 até 49/100.000 – aqui estão Cuba, Costa Rica, Chile, Uruguai e China. Considerado alto, índices de 50 a 149/100.000 nascidos vivos, apresentados no Brasil, Venezuela, Colômbia, México, Jamaica, Tailândia e Turquia. Acima de 150, o índice é considerado muito alto, situação do Equador, Guatemala, Paraguai e Honduras.  Bolívia, Peru, Nigéria, Senegal, Egito, Somália, Lesoto e Bangladesh têm índice considerado altíssimo, 300 mulheres morrem em cada 100.000 nascidos vivos.

“A redução da mortalidade materna faz parte das metas do milênio da ONU para o alcance de patamares mais dignos de vida para a população mundial, pois reflete as condições de vida da sociedade”. (United Nations, 2000)