As Mães da UTI

segunda-feira, 6 de maio de 2013 as 11:08

O pediatra Luis Alberto Mussa Tavares veio de Campos de Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, fazer um documentário sobre “As Mães do Sofia”.  Havia feito uma visita ao Hospital há dois anos. Desta vez, quis registrar através de entrevistas com profissionais, gestores e usuárias, os cuidados com as mães da UTI Neonatal, a maior do Brasil em número de internações.

A realidade na UTI Neonatal da Santa Casa de Misericórdia de Campos de Goytacazes, onde trabalha há mais de 20 anos, é bem diferente do Sofia, segundo relato do médico. Enquanto aqui as mães podem visitar seus bebês a qualquer hora do dia ou da noite, lá, o horário de visita está restrito a duas horas diárias e somente para os pais. Aos avós não é permitido conhecer o neto. Quando a equipe vai fazer um procedimento doloroso no bebê, os pais são convidados a se retirarem. No Sofia, eles são convidados a participar. Aprendem a lidar com seus bebês.

A indignação com a situação não levou o pediatra à estagnação. Primeiro, criou a Declaração Universal de Direitos do Bebê Prematuro, publicou um livro e passou a sonhar com uma casa para as mães da UTI da sua cidade. Fez um primeiro documentário mostrando a realidade destas instituições que acolhem o bebê, mas não incluem a mãe e os familiares. Agora, decidiu mostrar soluções criativas e possíveis de inclusão das mães, idealizando o documentário “Mães do Sofia”.

Mãe parceira

“A visão da mãe como parceira é resumo de tudo o que vi aqui. Não é uma cliente, é uma parceira do cuidado, em benefício dela, do bebê e da família. Na verdade, o que causa uma profunda admiração é o modelo aqui praticado, a forma de tratamento que essa mãe recebe; ela é percebida e cuidada pelo sistema”. Ele costuma dizer que, assim que o bebê nasce e é transferido para uma UTI, a mãe se torna invisível para o sistema e para a assistência.

O que não acontece no Hospital Sofia Feldman, onde ela é acolhida no Espaço Sofias – Acolhimento à Puérpera e permanece na instituição, com repouso e alimentação garantidos, além de participar das terapias complementares – auriculopuntura, escalda-pés, ventosa, juntamente com os funcionários e de frequentar o salão Sofia é uma Beleza com o objetivo de elevar a autoestima. Algumas ficam morando no Sofia por meses ou até mais, como é o caso de Emila Cristina Ferreira, cujo filho Pedro Emanuel completou um ano no Sofia: “O Sofia está sendo uma grande família. Todo mundo me conhece, me cumprimenta. Lembra uma segunda casa. Falo para os outros que eu moro aqui”.

Segundo o médico, “o Sofia é especial em relação a outros hospitais e a ciência que a gente conhece. O bebê e a mulher, além da clínica, tem um status social, cultural e geográfico, aqui o bebê tem uma família, um pai, uma avó. Aqui, o usuário é um cidadão e é tratado como tal”. Dr. Luis Tavares falou com profissionais da Neonatologia, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfermeiros neonatólogos e gestores.

Recursos da alma

Dr. Ivo Lopes, diretor administrativo, informou que a comunidade está dentro do hospital desde a sua fundação, através da ACAU-HSF, Associação Comunitária de Amigos e Usuários do Hospital Sofia Feldman, que oferece voluntários – ouvidoras, doulas, amigas da família, apoiadores sociais, que atuam diariamente na instituição. “O Sofia surgiu por uma ação da comunidade. Nosso desejo era uma saúde para todos até o ano 2000. Sr. José Sobrinho, da Sociedade São Vicente de Paulo, que deu início ao sonho do Sofia, quis a garantia dos gestores de que a comunidade nunca sairia daqui de dentro. O fato da comunidade estar aqui desde antes dos médicos chegarem à assistência facilitou algumas ações com o usuário. Esta relação entre o Hospital e a comunidade já está consolidada”, explicou o diretor.

“O que eu mais levo é a certeza deste relacionamento. A certeza de que a gente vai continuar. É acreditar nos valores sedimentados que nós temos. Vamos persistir neste caminho, mantendo uma relação muito estreita com a comunidade”.

Falou sobre os repasses financeiros: “A construção do SUS tem um grande gargalo, o financiamento muitas vezes não cobre o custo, mas isto não é desculpa. Não depende de recursos financeiros, mas de recursos da alma” – filosofou  – “se a gente confiar no ser humano, respeitando a sua diversidade religiosa, política, as opções sexuais e nos alegrar com isto, estaremos juntos construindo nosso paraíso aqui”.

Dr. Luis completou, lembrando Che Guevara: “hospital de ponta na tecnologia, mas sem perder a ternura jamais”.

A despedida

“O que me chamou a atenção foi a permissão que a mãe recebe na UTI neonatal, o tratamento personalizado, podendo levar fraldinhas e shampoos para o seu bebê, fotografar tudo, além de ter a permissão de participar de procedimentos dolorosos graves. E até a permissão de se despedir de seu filho colocando-o no colo na hora da partida”. A informação foi da pediatra neonatóloga, Juliana Cantareli. Ela contou emocionada que, quando o bebê vai a óbito, ela o coloca no colo da mãe, reúne a família e faz um batizado simbólico. “A UTI cuida de forma muito respeitosa de um filho quando não há mais nada para fazer. Um exemplo da grande diferença da realidade daqui para a de fora”, concluiu o pediatra.

Respeito ao usuário

Outra coisa chamou a sua atenção, o fato de todos tomarem as refeições juntos no Restaurante Serra da Piedade, do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital, onde médicos, enfermeiros, funcionários da higienização, as mães, os pais, os avós, todos comem juntos. Na Santa Casa de Campos de Goytacazes, os médicos comem separados e o cardápio é diferenciado: “não bastasse a acolhida física e todo um trabalho de humanização na atenção à criança com problema, a usuária ganha um tratamento de igual para igual na hora da refeição, do café da manhã, é tratada de igual para igual como qualquer autoridade ou visita. Todos aqui são elevados à importância de autoridade”.

Outro diferencial do Sofia é a atenção por equipe multiprofissional. Dr. Ivo explicou: “não foi focado na figura de um profissional, muito menos no médico, o trabalho foi focado em outras categorias. Os que vieram já tinham esta ideologia. Quem se adaptar, permanece, quem não se adequar, vai embora. Ele não se sente em casa. Quem vem para cá tem que escutar o usuário, não pode impedir que ele fotografe, filme suas ações”.

Dr. Ivo costuma dizer que a enfermagem é quem carrega o andor do hospital. “A enfermeira conduz o parto calmamente, o médico mais cirurgicamente, o que tem levado a altas taxas de cesáreas no Brasil; eles estão produzindo prematuros e lotando as UTI”.

“A Casa é do usuário. Nossa razão é ter nossa população atendida”, afirmou o diretor.

Inclusão da mãe

“No meu hospital existe carinho, atenção, mas não é institucional, aqui, faz parte do padrão da instituição tratar dessa mulher. Lá, ela pode ser bem tratada por um ou outro profissional, ou não. Às vezes é super acolhida, às vezes é ignorada”, relatou. “Esta proximidade da mãe com o hospital, esta história de ser apoiada, não descartada durante a permanência do bebê é a grande lição do Sofia Feldman, grande aprendizado, que sirva de lição para outras unidades. Que possam se espelhar no Hospital cidadão. É amigo da criança antes de ser certificado, é humanizado antes da humanização”.

“A mãe  reconhece o hospital como parte da família porque o hospital sabe que a sua presença, o seu toque é importante para o bebe e está convencido do seu papel no desenvolvimento do prematuro. Isto é fantástico!”

Dr. Luiz pretende  apresentar o documentário nas instituições de ensino e saúde. “Que a mensagem do Sofia possa ecoar além dos limites de Minas Gerais, na tentativa de tocar corações, fazer os profissionais perceberem que a verdade é muito maior que a que se aprende, mas que existem outras formas de verdade que contribuem com a cidadania e o respeito. Sensibilizar os meus profissionais para que essas impressões possam provocar necessidades, melhorar este contato, esse apoio em relação a estas mulheres da minha região que, em comparação com as mães do Sofia, sofrem muito. Tentar fazer um pouco do que pode dar fruto sem grandes gastos tecnológicos”.

Declaração Universal dos Direitos do Bebê Prematuro

Artigo I

Todos os prematuros nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência. Possuem vida anterior ao nascimento, bem como memória, conhecimento, emoção e capacidade de resposta e interação com o mundo em sua volta.

Artigo II

Todo prematuro tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.

Artigo III

Nenhum prematuro será arbitrariamente exilado de seu contexto familiar de modo brusco ou por tempo prolongado. A preservação deste vínculo, ainda quando silenciosa e discreta, é parte fundamental de sua vida.

Artigo IV

Todo prematuro tem direito ao tratamento estabelecido pela ciência, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. Sendo assim, todo o prematuro tem o direito de ser cuidado por uma equipa multidisciplinar capacitada a compreendê-lo, interagir com ele e a tomar decisões harmoniosas em seu benefício e em prol de seu desenvolvimento.

Artigo V

Todo prematuro tem direito à liberdade de opinião e expressão, portanto deverá ter seus sinais de aproximação e afastamento identificados, compreendidos, valorizados e respeitados pela equipa que o cuida. Nenhum procedimento será considerado ético quando não levar em conta para sua execução as necessidades individuais de contacto ou recolhimento do bebé prematuro.

Artigo VI

Nenhum prematuro será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. Sua dor deverá ser sempre considerada, prevenida e tratada através dos processos disponibilizados pela ciência actual. Nenhum novo procedimento doloroso poderá ser iniciado até que o bebé se reorganize e se restabeleça da intervenção anterior. Negar-lhe esse direito é crime de tortura contra a vida humana.

Artigo VII

Todo prematuro tem direito ao repouso, devendo por isso ver respeitados os seus períodos de sono superficial e profundo que doravante serão tomados como essenciais para seu desenvolvimento psíquico adequado e sua regulação biológica. Interromper de forma aleatória e irresponsável sem motivo justificado o sono de um prematuro é indicativo de maus tratos.

Artigo VIII

Todo prematuro tem o direito inalienável ao silêncio que o permita sentir-se o mais próximo possível do ambiente sonoro intra-uterino, em respeito a seus limiares e à sua sensibilidade. Qualquer fonte sonora que desrespeite esse direito será considerada criminosa, hedionda e repugnante.

Artigo IX

Nenhum prematuro deverá, sob qualquer justificativa, ser submetido a procedimento stressante aplicado de forma displicente e injustificada pela Equipa de Saúde, sob pena da mesma ser considerada negligente, desumana e irresponsável.

Artigo X

Todo prematuro tem direito a perceber a alternância entre a claridade e a penumbra, que passarão a representar para ele o dia e a noite. Nenhuma luz intensa permanecerá o tempo inteiro acesa e nenhuma sombra será impedida de existir sob a alegação de monitorização contínua sem que os responsáveis por estes comportamentos deixem de ser considerados displicentes, agressores e de atitude dolosa.

Artigo XII

Todo prematuro tem direito a ser alimentado com o leite de sua própria mãe ou, na falta dessa, com o de uma outra mulher, tão logo suas condições clínicas o permitirem. Deverá ter sua sucção corretamente trabalhada desde o início da vida e caberá à Equipe de Saúde garantir-lhe esse direito, afastando de seu entorno bicos de chupetas, chucas ou qualquer outro elemento que venha interferir negativamente em sua sucção saudável, bem como assegurar-lhe seu acompanhamento por profissionais capacitados a facilitar esse processo. Nenhum custo financeiro será considerado demasiadamente grande quando aplicado com esse fim. Nenhuma fórmula láctea será displicentemente prescrita, e nenhum zelo será descuidadamente aplicado sem que isso signifique desatenção e desamparo.

Dr. Luís Alberto Mussa Tavares é editor dos sites:

www.fotolog.net/oprematuro e www.fotolog.net/amamentando