Fórum pela redução da mortalidade materna

quarta-feira, 29 de maio de 2013 as 15:51

Vinte mulheres faleceram em Belo Horizonte por problemas decorrentes do parto em 2012; 95% das mortes eram evitáveis. Os indicadores são da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, disponibilizados no “Fórum de Mobilização pela redução da mortalidade materna”, promovido dia 27 de maio, na sede do Conselho Regional de Medicina. O evento reuniu profissionais de saúde da família e comunidade, ginecologistas e obstetras, enfermeiros, conselheiros de saúde, organizações profissionais, universidades, estudantes e integrantes da sociedade civil e comemorou o Dia Internacional pela redução da Mortalidade materna (28 de maio). Em Minas Gerais ocorreram 50 óbitos de mulheres em idade fértil sendo 33 residentes em Belo Horizonte (20 óbitos obstétricos diretos ou indiretos) e 17 em outros municípios. A Organização Mundial de Saúde/OMS diz que o índice aceitável é de 20 mortes em cada 100 mil nascidos vivos.

O Fórum foi promovido pela Comissão Perinatal e discutiu a situação da mortalidade materna no Brasil, Minas Gerais e Belo Horizonte, com o objetivo de sensibilizar e mobilizar profissionais, gestores e sociedade, com intuito de melhorar a qualidade de atenção em saúde da mulher, à luz dos direitos reprodutivos e sexuais.

A mesa de abertura abordou “A situação da Mortalidade Materna no Brasil”, com a presença do obstetra, Dr. João Batista de Castro Lima, diretor clínico do Hospital Sofia Feldman e consultor do Ministério da Saúde no Programa Rede Cegonha. Dra. Sônia Lansky, pediatra e presidente da Comissão Perinatal enfocou a “Mortalidade Materna em Belo Horizonte”. Frederico Amedee Peret, da Sociedade Mineira de Ginecologia/SOGIMIG falou sobre “Vigilância da Morbidade materno-grave: estratégia para prevenção da mortalidade”; e Maria do Carmo Fonseca, do Cedeplar-FACE/UFMG abordou o tema “Mortalidade Materna – gênero e desigualdade”. O Fórum contou, também, com a participação da representante do Conselho Regional de Medicina/CRM, Cláudia Navarro; da representante do Conselho Regional de Enfermagem (COREN), Ângela Fátima Vieira Silva; do representante da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (SOGIMIG), Vitor Hugo Melo e da representante da Associação Brasileira de Enfermagem Obstétrica/ABENFO, Solange Diniz.

Paradoxo Perinatal

Sônia Lansky informou que grande parte destas mortes acontece por causas evitáveis: síndromes hipertensivas ou hemorrorágicas, Infecção puerperal e complicações pós-aborto ou cesarianas. Para a pediatra, existe no Brasil um paradoxo perinatal: “grandes  avanços tecnológicos, mas com práticas sem respaldo científico, e intensa medicalização que, por sua vez, não impactam na diminuição dos índices de mortalidade infantil e materna, que  permanecem elevados”.

“Os partos no Brasil são realizados com excesso de intervenções, com aplicação de ocitocina sintética, episiotomia (corte vaginal), posição litotômica (deitada)  e banalização da cesariana. Algumas situações como a solidão da mulher quando não tem direito a acompanhante no trabalho de parto, a imobilização na cama, quando não é permitido que ela deambule durante o trabalho de parto e o jejum a que são submetidas as mulheres em grande parte das maternidades, já antecipando a possibilidade de uma cesariana, podem levar a um quadro de stress”, afirmou a pediatra.

João Batista, do Sofia e consultor da Rede Cegonha, Dr.Virgílio Queiróz e Sônia Lansky, da Secretaria Municipal de Saúde.

João Batista, do Sofia e consultor da Rede Cegonha, Dr.Virgílio Queiróz e Sônia Lansky, da Secretaria Municipal de Saúde.

Estas práticas – segundo Sônia Lansky – geram efeitos adversos invisíveis  como a prematuridade e imaturidade iatrogênicas (Iatrogenia é uma doença com efeitos e complicações causados como resultado de um tratamento médico),  a internação dos recém-nascidos, prejuízos no aleitamento materno, morbi-mortalidade materna e infantil evitáveis.

O Movimento BH pelo Parto Normal,  orquestrado por Sônia Lansky, e que reúne vários parceiros em torno da causa, trabalha pelo resgate da normalidade do nascimento, visto como um evento fisiológico, familiar e social. “Neste modelo, respeita-se o protagonismo da mulher e sua autonomia no parto, um cuidado humanizado centrado na mulher, bebê e familiares, intervenções baseadas em evidências científicas e uma escuta qualificada das mães, com valorização de suas queixas”, concluiu.

“Queremos reforçar o compromisso da Secretaria Municipal de Saúde e a responsabilidade de reduzirmos a mortalidade materna. Belo Horizonte tem uma excelente cobertura na atenção primária, ampliamos o acesso e isso é muito importante; Se não houver envolvimento de todos, é impossível alcançarmos bons resultados”, disse o secretário municipal adjunto de Saúde, Fabiano Pimenta. “Com o fórum podemos aprimorar essa discussão e produzirmos uma assistência mais adequada para reduzirmos ainda mais a mortalidade materna”, concluiu Sonia Lansky.