Profissionais do MS, PR, RS e MG visitam o Sofia

sexta-feira, 14 de junho de 2013 as 13:24

“O compromisso ético de cada um da equipe é pré-requisito para a humanização da assistência ao parto e nascimento”. A afirmação do diretor administrativo do Hospital Sofia Feldman, Ivo Lopes, foi feita a profissionais de saúde de Curitiba,  Campo Grande, Caxias do Sul, Betim e João Monlevade durante visita técnica promovida pelo Ministério da Saúde. “Temos compromisso com a vida. Se não houver compromisso ético de cada um, nada vai funcionar”.

Ivo Lopes se reportou à criação do SUS, considerada por ele a maior ação de humanização tomada no país – “Saúde é direito de todos e dever do estado”. Listou outras: a CLT, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei do acompanhante no parto, a participação comunitária e o controle social, a criação da Central Reguladora de Leitos, a vinculação da rede básica de saúde com as maternidades, a judicialização da saúde, a criação da Rede Cegonha e o Programa Mães de Minas.

Enfermeiras obstetras

“O SUS e a Rede Cegonha são 100% Brasil, mas não podemos esquecer as particularidades de cada estado ou cidade. Não somos contra nada, podemos nos dar as mãos e somar”. O diretor frisou, “o parto é um ato da mulher e não do médico”.  Sônia Solange Ennes Pessoa, enfermeira obstetra de Campo Grande – MS e consultora do Ministério da Saúde e presidente da ABENFO – Associação Brasileira de Enfermagem Obstétrica relatou que a realidade de Campo Grande é diferente: “no município, a obstetrícia é um ato médico. Somos poucas enfermeiras obstetras atuando. A maioria de nós faz trabalho burocrático. Eu assisto a partos normais no Hospital Cândido Mariano porque sou muito antiga e tenho todo um respaldo”. Ela considera a inserção da enfermeira obstetra na equipe, preconizada pela Rede Cegonha, “um ganho muito grande. Estou vendo o meu sonho realizado”.

Refeitório democrático

Sônia Pessoa disse que sempre ofereceu o modelo de assistência do Sofia, “que valoriza a mulher e o nascimento; que  valoriza a vida, mas, para assistir a partos humanizados tive que desaprender o que aprendi na Escola Paulista de Medicina, a fazer episiotomia, a assistir partos hospitalares”.  Para Sônia, a mudança tem que começar na formação: “modificar os currículos, bater na tecla da humanização”.

Observou uma diferença básica entre o Sofia e a assistência em sua cidade: “Lá tudo é bem separado, até na parte dos refeitórios. Aqui, todos comem juntos, enfermeiras, médicos e usuários”. Igor Bráz, enfermeiro do Hospital Margarida, de João Monlevade, veio por conta própria conhecer o Sofia, juntamente com a enfermeira Rita de Cássia. Ele também se impressionou com o Restaurante Serra da Piedade, do Serviço de Nutrição e Dietética do Hospital: “a alimentação no refeitório  não tem separação de classe, não importa se você é médico, se é enfermeiro, mãe com bebê, todos juntos almoçando”.

Rita de Cássia disse que veio buscar no Sofia “mais conhecimento. Vimos que tem muita coisa para melhorar em nosso hospital e, como o Sofia é referência, viemos buscar conhecimento para ver o que podemos levar para a nossa realidade”. Dentre as metas, reduzir o número de cesarianas, já que o Hospital Margarida tem um índice de 70% de cesáreas. Atende pelo SUS e convênios: “no convênio, chega-se a 100% de cesáreas”, informou.

Acompanhante no parto

Rita de Cássia contou que a instituição recebe o acompanhante no parto, “mas não temos a presença da família e a gestante participando ativamente do trabalho de parto. O acompanhante pode ficar o tempo todo ao lado da mulher, caso ele queira. Os partos são tradicionais, em posição ginecológica e, a grande maioria, com episiotomia (corte vaginal).  Fiquei encantada com o trabalho e o respeito aos pacientes aqui no Sofia”. Ivo Lopes enfatizou: “Devemos derrubar os muros que nos cercam e criar pontes entre nós, trabalhadores e usuários, evitando a violência obstétrica”.

Sobre a Lei do Acompanhante, Ivo comentou: “temos o arcabouço jurídico da humanização. Existe a lei, se está sendo cumprida ou não, vai depender da cobrança de cada cidadão. Deve procurar a Promotoria no caso de desrespeito à lei. É preciso se adaptar: se você tem 100 leitos, de uma hora para outra, tem mais 100 pessoas para comer, ir ao banheiro, ver os seus defeitos; e é direito delas. A Lei do Acompanhante vigora também dentro da UTI Neonatal, os bebês têm que ter acompanhante, é lei”.

Categoria rara

Os visitantes conheceram a Creche José de Souza Sobrinho, que acolhe os filhos de funcionárias (os). As mães podem visitar ou amamentar o filho a qualquer momento do dia.  “Gostei da creche, com a presença liberada das mães e também da valorização do profissional com a oferta de academia para eles”, enfatizou Rita de Cássia, referindo-se ao Programa Sofia Em Forma.

Segundo a enfermeira, “grande parte das crianças do Hospital Margarida é transferida, pois lá não tem UTI neonatal. A maioria é transferida para o Sofia. “Eu mesma faço os contatos. Nosso sonho é ter lá uma UTI. Transferimos também quando não temos pediatra, sem pediatra não tem parto. Vimos aqui que não é essa a realidade do Sofia. Sonho que o Hospital Margarida se torne referência na questão materno-infantil”.

“Aqui no Sofia, 50% dos recém-nascidos são assistidos por enfermeiras obstetras. Pediatra é uma categoria muito rara” – explicou Ivo Lopes.  “O Ministério da Saúde está trabalhando para incluir a enfermeira obstetra. Quando o parto é de risco habitual não precisa de pediatra”, afirmou.  O Sofia é um Hospital Amigo da Criança. “Ser um Hospital Amigo da Criança é quase uma grife” – brincou. “Tem que ter um profissional preparado, não necessita do médico, toda equipe é capacitada para receber o bebê. Aqui, 120 enfermeiros e fisioterapeutas foram capacitados pela Sociedade Mineira de Pediatria. Quando me formei, não tinha pediatra na sala de parto. Pediatra tem que ter em nosso quadro para atender intercorrências. Dr. Edson de Souza Borges, presente na palestra, contou que, na Europa, não tem pediatra para risco habitual.

Curitiba é destaque

Para Ivo, “Curitiba é destaque na qualidade da assistência”. Da cidade, vieram quatro profissionais para a visita técnica. Entre elas, Karin Madeleine Godarth, enfermeira obstetra e gerente do Centro Médico Comunitário do Bairro Novo. “A humanização do nascimento em nossa cidade é da vontade do gestor”, informou. A Secretaria Municipal de Saúde está exigindo mudanças. A mudança é de cima para baixo, tem que ter incentivo dos gestores. O primeiro passo é instalar as boas práticas no trabalho de parto. Mas, em outros locais, as mudanças podem encontrar resistência dos profissionais ligados ao modelo antigo”.

O ginecologista e obstetra Wagner Dias é Coordenador do Programa Mãe Curitibana, da Secretaria Municipal de Saúde, que ganhou o prêmio da OPAS/OMS em 2012. Declarou-se parteiro. “Porque gosto de fazer parto normal. Nas clínicas privadas, os médicos são mais cesaristas. A mulher é quem faz o parto, eu só dou preparo psicológico e seguro o bebê”. Informou que em Curitiba, eles têm promovido fóruns sobre as boas práticas. Veio ao Sofia porque está “reformando o  Instituto da Mulher com a criação da casa de parto, segundo portaria da Rede Cegonha. Temos o acompanhante, temos a bola, o chuveiro e banheira para parto na água no Hospital e Maternidade Victor Ferreira do Amaral. Curitiba conta com seis hospitais que atendem a Rede SUS. O índice de cesáreas na cidade é 30% de parto normal e 60% de alto risco”.

Hospital-Escola

A gestora do Centro de Estudos e Pesquisas/NEP, da Maternidade Ibiruçú, de Betim, Solange Silveira se juntou ao grupo de visitantes: “meu objetivo no Sofia é conversar sobre especializações e residências, com o intuito de transformar a maternidade em hospital-escola”.

Também a fisioterapeuta Aline Dil Wink, do Hospital Geral de Caxias do Sul, professora da Universidade Caxias do Sul, quer fazer chegar as informações aos alunos. “Eles têm que ter este conhecimento para mudanças na prática. Quero levar algumas experiências do Sofia, como o trabalho em equipe multidisciplinar, as terapias complementares, os métodos não farmacológicos de alívio à dor, eficazes e sem drogas e  fazer com que a mulher se torne mais ativa no trabalho de parto”. Priscila de Oliveira, enfermeira materno-infantil também do Hospital Geral de Caxias do Sul, cultiva um sonho: “participar de um processo para, no futuro, ter isto na nossa cidade, seja no particular ou no SUS”.

Ivo Lopes, em sua palestra, destacou algumas práticas do Sofia na assistência humanizada ao parto, nascimento:

Contato pele a pele após o nascimento

“Bebê tem que colocar no pele a pele para colonizar com as bactérias da mãe, criando anticorpos que vão competir com as bactérias hospitalares. As visitas têm que ser ampliadas, parto não é doença, é a celebração da vida”.

Corte do Cordão umbilical

O corte do cordão é a família quem tem que fazer. Cria-se assim uma rede de proteção social em torno da criança, aumenta o compromisso com o filho. É simples: é só entregar a tesoura para o pai na sala de parto”.

E, lembrou o lema da Filantropia, que é também do Hospital Sofia Feldman: amor à humanidade.