Centros de apoio à Rede Cegonha

sexta-feira, 5 de julho de 2013 as 21:16

“Acredito na Rede Cegonha. Não é fácil mudar a postura dos profissionais, é devagar, persistente, o tempo todo”.  As palavras são de Sérvio Quesado, obstetra da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, da Universidade Federal do Ceará, uma das seis maternidades escolhidas para se tornarem Centros de Apoio da Rede Cegonha em suas regiões. Sete profissionais da instituição vieram à Belo Horizonte para participar da “I Oficina para Implementação dos Centros de Apoio ao Desenvolvimento das Boas Práticas na Atenção Obstétrica e Neonatal”, que reuniu no Hospital Sofia Feldman, nos dias 27 e 28 de junho, gestores de maternidades, profissionais de enfermagem, ginecologia, obstetrícia e neonatologia, apoiadores do Ministério da Saúde para a Rede Cegonha, e das áreas da Saúde da Criança, da Mulher e Política Nacional de Humanização (PNH).  A Oficina detalhou a proposta dos Centros de Apoio e formulou um  plano de ação.

A mesa da abertura foi composta pelo presidente da Fundação de Assistência Integral à Saúde/FAIS, Sr. José Moreira Sobrinho, o diretor administrativo do Hospital Sofia Feldman, Dr.  Ivo de Oliveira Lopes, Sônia Lansky, coordenadora da Comissão Perinatal, da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, Sônia Leivori Pereira, representante da Área Técnica de Saúde da Mulher, Ana Paula da Cruz, da Área Técnica de Saúde da Criança e Aleitamento Materno, Dr. Gustavo Neims, coordenador da Área Técnica da PNH (Política Nacional de Humanização).

Maternidade-Referência

Sônia Leivori, da Área Técnica da Saúde da Mulher, explicou sobre os Centros de Apoio: “a partir da experiência do Sofia, precisávamos ter uma maternidade referência em cada região. Os apoiadores indicaram os estabelecimentos que estavam mais próximos da implantação da política de humanização. Visitaram as dezesseis maternidades e identificaram estas seis, que reuniam o maior conjunto de experiências”.

As 6 instituições de saúde do país identificadas com experiências expressivas na gestão e atenção ao Parto e Nascimento e convocadas a serem Centros de Apoio: Hospital Nossa Senhora de Nazaré (Roraima); Hospital Risoleta Neves (Minas Gerais); Hospital Universitário da UFMA (Maranhão); Maternidade Escola Assis Chateaubriand  – MEAC  (Ceará); Maternidade Balbina Mestrinho (Amazonas); Maternidade Dona Regina (Tocantins).

“O Sofia vai ser o tutor para estas seis maternidades” – explicou Sônia Leivori – a partir de janeiro, elas vão assinar um termo de compromisso e se responsabilizar por outras maternidades da região. Irão visitá-las e serão visitadas por elas, como aqui no Sofia, exercendo uma tutela de acompanhamento das boas práticas, trabalhando pela redução de epsiotomia (corte vaginal), das mudanças da posição de parto (da posição de litotomia para a posição de cócoras, mais fisiológica), do clampeamento tardio do cordão, entre outras práticas.  A partir do ano que vem, passarão a receber custeio por esta atividade” afirmou Sônia Leivori.

Devolvendo o parto para as mulheres

Sônia Lansky, coordenadora da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde, declarou sua alegria ao ver os presentes: “é prazeroso ver os profissionais dos lugares que eu acompanhei de perto aqui. Momento de ouvir outras vozes na construção da cidadania, no que tange ao direito à saúde. O Sofia tem um olhar vivo no fazer em saúde e sempre tem algo novo. Aprendemos muito com o Sofia, que tem assumido essa dívida social e feito muito não apenas para o SUS mas para todas as mulheres. Têm mulheres de plano de saúde que procuram o Sofia pois o que buscam não encontram na rede privada.  O Sofia nos inspira para continuarmos a oferecer o que há de melhor para o usuário”.

Para Sônia Leivori, houve avanços nestes 10 anos do Plano de Qualificação das Maternidades.  “Avançou e muito. Ouvi depoimento de um dos participantes. Ele contou que, na Maternidade Balbina Mestrinho, eles demoraram para implantar o direito a acompanhante, mas que hoje é uma realidade”. A maior resistência veio dos próprios profissionais: “é difícil mudar o modo de trabalhar. Antes, o modelo atendia ao próprio trabalhador, hoje está focando no usuário e se baseia em evidências científicas, que mostra, por exemplo, que o parto de cócoras é melhor e é menos dolorido. Cabe ao profissional de saúde amparar e fazer o gosto da mulher.  Temos 6 estabelecimentos se preparando para fazer esta revolução no parto, devolvendo para as mulheres o ato de parir”, concluiu.

Crença na Rede Cegonha

Dr. Sérvio Quesado disse que parte das boas práticas já foram implantadas no Hospital Maternidade Escola Assis Chateaubriand, de Fortaleza onde trabalha, mas que quer aperfeiçoar. “Confesso que custei a adotar algumas delas: a prática de colocar o bebê todo melado no contato pele a pele com a mãe logo ao nascer e era fã, também, da episiotomia, mas agora não faço mais. Não faço o toque o tempo todo”. Enquanto visita o Sofia com os outros participantes, se frustra em uma expectativa, a de assistir a um parto na água, já que nenhum acontecia naquele momento. Decidiu: “vou voltar outra vez aqui para conferir”.

O venezuelano Orlando de Jesus Roberto, obstetra e coordenador da obstetrícia do Hospital Materno-Infantil Nossa Sra. de Nazaré, de Boa Vista, Roraima, concorda com o Dr. Sérvio:  “Acredito na Rede Cegonha. Vamos conseguir mudar. Algumas coisas já foram implantadas, atendimento com as boas práticas, a classificação de risco e o parto humanizado, aquele natural com a participação do médico, da enfermeira e da família”. Dr. Orlando disse que, no hospital, atende indígenas e mães da Venezuela e Guiana.  A instituição faz 750 por mês. No ano passado, realizou 8.800 partos e tem um índice de 32% de cesárea.

Resistências vencidas

Maria das Graças Martins Silva veio do Maranhão, onde é enfermeira especialista em saúde da mulher e da criança no Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão /Unidade Materno-Infantil.  Apoiadora do Serviço do Ministério da Saúde, relatou que está no processo de humanização da assistência desde 2009: “no início o hospital universitário era muito resistente, hospitais universitários são muito tradicionalistas.  Hoje, é um centro de apoio, já conseguimos implantar as boas práticas”. O hospital faz 500 partos por mês, com um índice de 51% de cesáreas. Do Maranhão, vieram 8 pessoas, sendo 5 profissionais do Hospital e 3 apoiadores da Rede Cegonha.

Do Ceará, participaram 5 profissionais da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand/Universidade Federal e 2 apoiadores da Rede Cegonha. Entre eles, a assistente social Adriana Melo que contou: “estamos em processo de mudança. Já temos a presença do acompanhante, a vinculação com a rede, o acolhimento por classificação de risco e as boas práticas na assistência”. Reconhece que, no processo, encontram resistência: “por conta do modelo de parto muito medicalizado. Temos pouca inserção da enfermeira obstetra e precisamos reduzir as taxas de cesáreas, em torno de 51%. A de mortalidade infantil está boa, 10/1.000, já a mortalidade materna ainda está alta, 68/100.000 nascidos”.

As maternidades foram selecionadas segundo alguns critérios: ser 100% SUS, atender a risco habitual e alto risco, o comprometimento dos gestores, oferta de ambiência adequada, ter enfermeiros obstetras na assistência ao parto normal, atender a mais de 1.000 partos por ano e realizar assistência humanizada às mulheres em situação de violência ou abortamento.

Segundo a terapeuta ocupacional do Hospital Sofia Feldman Erika Dittz, que fez parte da comissão de seleção “espera-se que as atividades realizadas pelos Centros de Apoio possibilitem aos participantes atuarem como agentes de mudança em seus serviços, incorporando e implementando as boas práticas na atenção ao parto e nascimento. Apostamos que esse movimento tem a potência de melhorar a qualidade da assistência e impactar nos indicadores de morbimortalidade materna e neonatal”.