Missão no Reino Unido

segunda-feira, 15 de julho de 2013 as 11:48

Conhecer as experiências no cuidado obstétrico no Reino Unido no âmbito da formação, regulamentação e prática profissional. Com este objetivo, uma delegação brasileira, formada por representantes do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (COREN) e Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO) foi até Londres, na denominada “Missão ao Reino Unido”, conhecer hospitais, casas de parto e associações de classe e trazer experiências para o Brasil. Entre 10 e 25 de junho, fizeram uma imersão na assistência obstétrica da Inglaterra com o objetivo de definir uma agenda de trabalho na busca por mecanismos de fortalecimento da educação, regulação e associação de midwives (obstetrizes), avaliando o que se aplica à enfermagem brasileira. As atividades incluíram visitas técnicas, reuniões internas do grupo para discussão e revisão de documentos e elaboração de planos de ação.

Ao final da visita, os participantes escreveram uma carta, onde firmaram a parceria entre as entidades de classe (conselho e associação) da Inglaterra com as instituições brasileiras, pela melhoria da qualidade da assistência, dos indicadores de saúde da mulher e do recém-nascido. “A proposta é fazer um intercâmbio de conhecimentos e experiências que favoreça a criação e o fortalecimento de alianças que possibilite a superação dos desafios e conflitos”, informou a enfermeira obstetra, Vera Bonazzi.

Sofia em Londres

Vera Bonazzi é referência técnica de enfermagem do Hospital Sofia Feldman e estava entre os visitantes.  Integra a Comissão de Saúde da Mulher do COFEN/MG e preside a ABENFO/MG. Os seis profissionais da delegação brasileira visitaram 5 instituições de Londres: uma associação de midwives (obstetrizes) – Nursing and Midwifery Council/NMC, as universidades Royal College of Midwives/RCM e Florence Nightingale School of Nursing & Midwifery do King’s College London; a maternidade do St. Thomas Hospital; e uma casa de parto,  Barkantine Birth Centre.

A assistência da enfermeira obstetra faz parte do sistema de saúde do Reino Unido. A midwife (obstetriz) como é conhecida tem um papel fundamental, importante e respeitado. É ela quem assiste a mulher desde a gestação até o parto e pós-parto. O médico é chamado quando ocorre intercorrências. A mulher é respeitada em suas escolhas, podendo optar por ter seu parto no hospital ou em casa.

“É clara a autonomia da midwife no Reino Unido, tanto para os profissionais e as instituições, quanto por parte da sociedade. Não há nenhuma dúvida sobre o seu papel no cenário da obstetrícia”, constatou Vera Bonazzi. “O papel do médico na assistência é tratar as intercorrências, toda a assistência na gestação, parto e  pós-parto de risco habitual no Reino Unido é feito pelas midwives. O médico é chamado quando detectam algum risco”.

Semelhanças

Vera encontrou semelhanças entre a assistência no Hospital Guy’s and St. Thomas e o centro de parto normal – Barkantine Birth Centre com a assistência oferecida no Hospital Sofia Feldman. “Diferente é apenas a estrutura física. Eles também usam os métodos não farmacológicos de alivio à dor, permitem a escolha da parturiente pela posição de parto, respeitam o protagonismo da mulher e a autonomia das midwives. Porém, lá a assistência da enfermeira obstetra é mais expandida, a midwife faz ultra-som, histeroscopia e prescreve medicamentos”, observou.

Participaram da delegação: Valdecyr Herdy Alves, coordenador da Comissão de Saúde da Mulher do COFEN e Presidente da ABENFO Nacional; Kleyde Ventura de Souza, coordenadora Suplente da Comissão de Saúde da Mulher do COFEN e vice-presidente da ABENFO Nacional; Maria do Rozário de Fátima Borges Sampaio, conselheira Federal e membro da Comissão de Saúde da Mulher do COFEN; Sebastião Júnior Henrique Duarte, conselheiro Federal e membro da Comissão de Saúde da Mulher do COFEN; Ângela Fátima Vieira Silva, primeira secretária e coordenadora da Câmara Técnica de Obstetrícia do COREN/MG.

The Royal College of Midwives (RCM)

Vera Bonazzi fez uma palestra contando a experiência para os profissionais do Hospital Sofia Feldman. Falou sobre a associação de obstetrizes, o The Royal College of Midwives (RCM).

“A Associação de Midwives, criada em 1881, é responsável por  certificar os serviços que mantêm alta qualidade na assistência. Em 2013, contam com 41.600 profissionais, 85% em atividade. Sua ação se baseia nas evidências científicas para o cuidado obstétrico e não apenas na proteção profissional. Premia “midwives” de destaque, divulga positivamente o seu trabalho e promove o parto fisiológico. Mesmo em gestantes de alto risco a finalidade da assistência é que toda mulher tenha experiências positivas no processo de parto e nascimento. O trabalho delas é pautado no modelo colaborativo entre médicos, midwives e outros profissionais, respeitando a autonomia de cada um deles. Na Inglaterra, elas trabalham em todos os níveis de atenção, prestam cuidados à mulher no ciclo gravídico puerperal, ao recém-nascido e família”.

Segundo a enfermeira, cada midwife acompanha anualmente de 28 a 30 mulheres durante a gestação, parto e pós-parto. Dependendo da necessidade da mulher e do recém-nascido, realiza aproximadamente, de 5 a 10 visitas no pós-parto. “O que mais me chamou a atenção foi o controle e o apoio que é oferecido à categoria”, declarou Vera Bonazzi.

Comparando a associação de obstetrizes do Reino Unido com a associação e o conselho no Brasil, pode perceber que “o acompanhamento e a avaliação na formação das midwives é mais sistematizado e criterioso. Vou reunir com o grupo de formação e tutoria, para pensarmos como podemos adaptar o que há de melhor na assistência no Reino Unido para a nossa realidade”, decidiu.

Florence Nightingale School of Nursing & Midwifery  King’s College London

A escola oferece um curso universitário de 3 anos. Para conclusão, o estudante tem que assistir a 40 partos, fazer 100 atendimentos de pré-natal e 100 de pós-parto. Atividades práticas representam 50% da carga horária.

Segundo Vera Bonazzi, há uma articulação entre o conselho Nursing & Midwifery Council , a universidade Royal College of Midwifery e o Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) para a qualificação da assistência à mulher no período gravídico puerperal.

Nursing & Midwifery Council (NMC)

É o órgão regulador, de proteção pública e determinação do exercício profissional de enfermeiros e midwives. Conta com 673.428 enfermeiros cadastrados, destes, 41.208 são midwives, que assistem 60% a 70% dos partos no Reino Unido.

Vera Bonazzi listou os princípios que norteiam a formação de Midwives: assistência centrada na mulher, incentivo ao parto normal, obrigações éticas e jurídicas, respeito aos indivíduos e comunidades e qualidade dos serviços.

Guy’s and St. Thomas Hospital

O hospital conta com 20 quartos ppp (onde a mulher é atendida no pré-parto, parto e puerpério) oferecendo assistência por midwives e médicos. Tem serviço de pronto atendimento: assistência cirúrgica, 2 quartos com banheiras, uma unidade intensiva com 4 leitos. Assiste a 130 partos por semana e tem uma taxa de 23% de cesarianas. “Lá, como no Sofia, a mulher pode apresentar seu plano de parto, informando suas escolhas e a autonomia do exercício dos profissionais é clara e definida”, constatou a enfermeira.

Vera Bonazzi informou que a equipe de Midwives do St. Thomas Hospital é formada por 290 profissionais que atuam com autonomia plena no cuidado gravídico puerperal de risco habitual. A Unidade obstétrica realiza até 7.000 partos por ano; 5.500 partos de mulheres de sua referência, 1.000 mulheres de outras áreas e 400 partos na modalidade de serviço particular. “O parto fisiológico fica para as mulheres londrinas, em reais, de R$ 4.500,00 a R$ 8.750,00” relatou a enfermeira. “O hospital é referência nacional e internacional na atenção de excelência às mulheres.

Barkantine Birth Centre – London

“É um centro de parto normal extra-hospitalar e conta com uma equipe de 20 midwives para plantão na unidade e na comunidade. Assiste aproximadamente 650 partos por ano”.

A enfermeira Vera Bonazzi observou que, no centro de parto, “os métodos farmacológicos e não farmacológicos de alívio da dor mais usados são o banho de banheira e óxido nitroso, com uma média de 70 a 80%”. Como no Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano da Costa Filho, a casa de parto do Sofia, “a mulher deve atender aos critérios de gravidez de risco habitual”.

Considerações

A delegação brasileira, formada por representantes dos enfermeiros obstetras de Minas e do Brasil, após a viagem ao Reino Unido, definiu propostas de ações:

Fortalecer a Rede de Apoio Institucional pelo Sistema COFEN/Conselhos Regionais, Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras nas unidades federativas do Brasil.

Para a Comissão de Saúde da Mulher do COFEN: dar apoio institucional no fortalecimento da regulação, formação e prática da Enfermagem e Enfermagem Obstétrica. Ampliar as ações desta Comissão no âmbito da formação, regulamentação e prática.

Avançar na integração do ensino/serviço, com garantia de espaços de ensino prático, de tutoria, supervisão, preceptoria direta em serviço e instrumentos de acompanhamento e avaliação pautados nas competências.

Ampliar a participação do COFEN, Conselhos Regionais e ABENFO nos diversos espaços: Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, Conselhos de Saúde e Saúde Suplementar, garantindo a participação nas discussões e formulação de políticas públicas de saúde.

Formular mecanismos de regulação que garantam a segurança do usuário, a autonomia e qualificação profissional e a inserção da enfermagem, enfermagem obstétrica na atenção integral à saúde da mulher.

Balanço

Vera fez um balanço da viagem: “foi um avanço muito grande para as enfermeiras, principalmente as enfermeiras obstetras, porque esta missão reuniu instituições da categoria como o COFEN, que fez a legislação e definiu as normas para o exercício da profissão e a Comissão de Saúde do COREN, que está tentando formar esta rede de apoio, indo aos conselhos regionais, incentivando a criação de câmaras técnicas; tudo isto como forma de fortalecer a enfermagem obstétrica no Brasil, integrando as instituições – Sistema COFEN e COREN, ABEN e ABENFO”. O grupo, após visita ao Reino Unido, voltou motivado a estimular o avanço, principalmente, no que diz respeito à formação, regulamentação e participação da enfermeira obstetra na assistência.

“Acredito que, a partir daí, nós, profissionais que atuamos na saúde da mulher vamos ter ganhos, sentimo-nos incentivados a trabalhar pela categoria”, declarou Vera Bonazzi.

O que mais a tocou nesta imersão na assistência obstétrica londrina foi “o respeito pelos desejos da mulher, lá, isto realmente acontece. Se ela decide ter o parto em casa, aqui é condenada, rechaçada, lá, tem o desejo respeitado. A gestante é assistida pela midwife da gestação ao parto e puerpério. A midwife faz parte do sistema de saúde do Reino Unido. Na assistência, usam critérios recomendados pela Organização Mundial de Saúde”.