Sofia comemora um ano de parto domiciliar

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 as 9:42

“Ter a oportunidade de viver a dor na minha casa, no meu silêncio, no meu refúgio, sentindo o cheiro das minhas coisas, com a minha família, com meus bichos; foi uma oportunidade maravilhosa”. A pedagoga Juliana Felipe foi uma das 30 mulheres atendidas pela equipe de parto domiciliar do Hospital Sofia Feldman, durante o ano de 2014. Pais, mães, bebês e as enfermeiras obstetras se reuniram no final de dezembro para comemorar um ano do início do projeto, na Casa da Gestante Zilda Arns. Os partos domiciliares são feitos pelo Sofia, 100% SUS, constituindo-se em uma iniciativa pioneira da instituição.

“Melhorar ainda mais a satisfação dos usuários. Cada um se sente seguro em seu ambiente” – este é um dos objetivos do projeto, segundo a enfermeira obstetra, Raquel Rabelo que compõe a equipe de parto domiciliar junto a outras três profissionais – Kely Borgonove, Ludmila Taborda e Síntia Nascimento, sob a coordenação  da enfermeira obstetra, Eliane Rabelo.  “As mulheres ficam felizes, a família toda fica radiante. Os pais tem um papel ativo, comentam como mudaram a visão em relação ao parto, ao SUS e ao poder da mulher.  No ano passado ocorreram apenas 6 transferências do domicílio para o Hospital, por problemas como mecônio, bolsa rota e solicitação de anestesia sintética.

“Se pudesse, trabalharia só com isto” – admite Raquel – “a mulher que escolhe parto em casa está demandando algo diferente da cultura cesarista de hoje. Temos mulher de todo o tipo, desde classes mais favorecidas às classes mais baixas, todas buscando um parto de qualidade, no ambiente doméstico, com as pessoas da sua escolha”.

Parto Seguro

Visitas às gestantes em casa antes do parto, consultas no Hospital e orientação para o plano de parto fazem parte da assistência que antecede o parto em casa. “Parto domiciliar evolui tão mais rápido! Em dois deles, quando chegamos, o bebê já tinha nascido. Elas ficam mais tranquilas. A experiência da dor em casa é muito menor, não se compara. Não tem que ter pressa para levantar, tomar banho. Pode escolher o que vai comer”, revelou a enfermeira.

As enfermeiras obstetras levam para as residências os equipamentos necessários, como banheira para parto na água e banquinho para parto de cócoras. Vinte e quatro horas depois do parto, elas retornam ao lar para realização dos testes do coraçãozinho, olhinho e bilirrubina (que detecta icterícia).

As mulheres buscam o parto domiciliar após participação em rodas de mulheres realizadas em Belo Horizonte ou no ‘boca a boca’. Raquel Rabelo ressalta como “importante na segurança o fato de ter um profissional monitorando o bebê e a certeza de que, se precisar, tem a referência do Sofia. Se necessitar de transferência, vai ter ambulância, e todos prontos para recebê-la”, afirmou.

Gostinho de feito em casa

“Parto em casa tem gostinho diferente, de pão de queijo, pão integral caseiro. Nas visitas, sempre nos oferecem almoço, jantar, café. Sempre querem de forma simples agradecer com carinho; nos colocam nas orações, dizem que sempre estaremos nos seus corações”. Toda a família pode participar do trabalho de parto: “os outros filhos participam, ficam curiosos, querem entrar dentro da água” – relatou.

Nem todos os partos podem ser assistidos em domicílio. Há contraindicações: não ter cesárea prévia e estreptococos positivo (uma infecção que pode afetar mãe e bebê), mais de 18h de bolsa rota e gestação com agravos (pressão alta, diabetes). Segundo as enfermeiras é importante, também,   que o casal deseje o parto em casa,   os dois em sintonia: “o parto em casa respeita a intimidade do casal e favorece a formação de vínculos” – garante Raquel Rabelo.

Alguns casais que passaram pela experiência do parto em seus domicílios falaram sobre a experiência.

Uma experiência única

P: Jussara Valentino, por que você optou pelo   parto domiciliar?

R:  Eu não tive parto em casa por coragem, mas por medo das coisas que a gente escuta que acontece em alguns hospitais, de todas as intervenções que tanto a mulher quanto o neném sofrem; eu quis que fosse em casa pra evitar estas intervenções.

P: Como chegou à equipe do Sofia?

R: Eu tenho amigas que tiveram filhos aqui. A princípio, vim pela história do Hospital por ter uma proposta de parto diferente. Comecei a fazer meu pré-natal   aqui e tomei conhecimento do parto domiciliar. A equipe me abraçou e fez o meu parto na minha casa.

P: E aí? Como foi essa experiência?

R: A experiência foi forte, o parto é uma coisa muito forte. Em relação à equipe, não tenho o que dizer, fui muito bem acompanhada, com um carinho muito grande; a Ludmila foi quem me assistiu, liguei pra ela às 3h da manhã e ela de prontidão   foi pra minha casa e ficou lá durante as 9 horas de trabalho de parto. Foi uma experiência muito única mesmo, tanto por ser o meu primeiro parto quanto por ser domiciliar. As pessoas que eu tinha escolhido estavam ali por perto, as minhas amigas me ajudando, foi muito bom!

P: Ocorreu uma transferência, por quê?

R – Na   verdade a minha placenta ficou retida, e   tive que ir pro hospital pra poder retirá-la; ele nasceu com uma dificuldade de transição respiratória,    e aí a Ludmila fez todo procedimento que precisava ser feito em casa e decidiu que o melhor a fazer era a transferência para o Sofia. O nenê teve uma febre e suspeitaram de infecção. Ele ficou internado ao todo 8 dias no hospital.

P: Ele nasceu quando?

R: Dia 26/11, está com 23 dias hoje (no dia da entrevista). Muito recente, todas as informações ainda estão se acomodando dentro da minha cabeça, porque foi tudo muito forte.

P: Saber que existe esta retaguarda – o Sofia – foi importante?

R: Isso foi essencial, porque a equipe do parto domiciliar me acompanhou o tempo inteiro enquanto eu estava internada; todos os dias a Eliane (Rabelo) ia me ver; nos primeiros dias ela ia mais de uma vez por dia saber como que a gente estava. O bebê não pode ser amamentado nos primeiros dias porque como a respiração estava muito rápida, podia aspirar o leite, e aí houve toda a questão psicológica disso também. O fato de não poder amamentar foi muito difícil; tive acompanhamento da psicóloga do hospital que foi conversar comigo, até de madrugada. E vi o Dr. Ivo (diretor do hospital) passando, eu não o conhecia, a Ludmila me disse que ele ia lá de madrugada ver se estava tudo bem com as pessoas internadas. Esse respaldo do hospital foi essencial para que me tranquilizasse. A minha família imediatamente quis me transferir para um hospital particular, quando ficaram sabendo que a gente ia ter que ficar internada; meu irmão mais velho tentou de toda forma me convencer que a gente tinha que ir para um hospital particular, mas eu tinha muita certeza que não tinha outro hospital aqui em belo horizonte, quiçá no Brasil, que pudesse me atender melhor do que fui atendida aqui.

P: Vai indicar o Sofia para as amigas?

R: Indico com toda certeza e falo pra todas as pessoas que disseram que os problemas poderiam terem sido causados pelo parto domiciliar; eu tenho muita certeza que isso não é verdade, que nada do que me aconteceu foi porque a gente decidiu ter um parto em casa, ou porque a equipe não soube fazer ou se negligenciou de alguma forma, eu tenho a plena confiança em ter a mesma equipe que me atendeu neste, no meu próximo parto.

O parto no meu silêncio

Juliana Felipe: “Sou pedagoga, trabalho com educação infantil. O Wesley, meu esposo, é coordenador de UTI. Decidi por um parto domiciliar desde as 16 semanas. Nós participávamos dos encontros do ISHTAR (grupo de mulheres). Uma doula   contou que o hospital oferecia esse atendimento domiciliar. Ela dizia – imagina você poder usar o seu banheiro, dormir na sua cama e comer da sua comida após o parto. É nossa primeira filha, a gente não sabia o que era um parto, quando eu engravidei tinha muito medo de vir para o pré parto, das pessoas ficarem gritando, uma série de questões. Cada um vive sua dor de uma forma, e aí ter a oportunidade de viver a dor na minha casa, no meu silêncio, no meu refúgio, sentindo o cheiro das minhas coisas, com a minha família, com meus bichos; foi uma oportunidade maravilhosa.

Foram 24h em trabalho de parto, com muitas contrações, muitas dores, Cecília estava cefálica, mas não tinha encaixado, ela encaixou na hora do parto. Ter essa oportunidade de ter o meu marido, a minha dor em casa, e de minha filha chegar neste ambiente foi fantástico, foi maravilhoso!

P – Você indicaria este tipo de parto para suas amigas?

R: Se eu indico? Muitas vezes já indiquei, acho que é um atendimento de primeira linha, não existe nenhuma instituição particular, eu acho, que consegue fazer esse atendimento que as meninas fizeram comigo, desde os pródomos ((primeiro sinais no pré-parto) de acompanhamento, os atendimentos da madrugada pelo WhatsApp –  fizeram toda a diferença e me deram mais segurança. Lugar de parir é onde você está segura, então, eu me senti tão segura em casa que não tive vontade de ir pro hospital, pela  tranquilidade que me passaram.

P: E você Wesley (o pai), teve medo?

R: Eu tive medo no início.  Se eu falar que não tive medo vou mentir. Quando nós estivemos aqui a primeira vez,  eu debulhei de perguntas à enfermeira Monique (que fazia parte da equipe);  todas elas tinham resposta; então, a gente percebeu que era algo estruturado, algo muito bem elaborado, planejado e com pessoas que estavam ali porque gostavam do que faziam. Assim, a confiança foi vindo aos poucos.

Quando estávamos quase na reta fina, já tinha total convicção que era tudo bem planejado, que tudo estava pra dar certo. Todos os deveres de casa nós havíamos feito, então ficamos tranquilos. No momento do parto, tive alguns momentos de medo, ver a minha esposa e a minha filha ali naquela condição; foram 24 horas, mas o apoio psicológico realmente fez diferença, porque o homem fica a parte, não é? Mas, depois foi só alegria, tenho só que agradecer a toda equipe, foi mais que profissional, falo com todos que é um trabalho de amor, de doação mesmo e não há dinheiro que pague.

P: Juliana, você participou das terapias integrativas?

R –Eu vinha para as terapias às terças e sextas, fazia moxa (Moxabustão), Ventosa, Homeopatia,   Aurículo e  escalda pés, e isto fez diferença para mim. Então, no dia que eu tive um dos  pródomos muito fortes, fui às terapias, as meninas escaldaram os pés, conversaram, eu me senti cuidada; meu marido falava que parecia que estava na casa da minha tia avó, pelo  chazinho, o cuidado, o amor e a atenção, são coisas que fazem total diferença; e falar que é SUS, o SUS te atendendo dessa forma…

Por amor

A enfermeira obstetra Kelly Borgonove se emocionou ao falar com os casais:

“Acho que a primeira palavra é de agradecimento, agradecer primeiro sem sombra de dúvidas a todos, por permitir que fizéssemos parte deste momento tão especial na vida de vocês…cada parto é único, cada um tem sua história. A gente ouve: e se acontecer de madrugada, como é que a gente vai fazer? Nós vamos também, por amor pelo que fazemos. Não vemos aquilo como uma obrigação, é um vício; a Sara me falou que parir é um vício, eu falo que não é só parir não, assistir a partos também. A gente às vezes fica até 24h, muita gente diz – vai descansar. Gente, isso não é cansaço, a gente fica tão…tão plena de ocitocina, tão plena de amor e de carinho! Cada vez que nasce um bebe com a gente, eu sei que pra vocês é indescritível, mas para nós também é uma coisa que não tem preço, não tem nem como descrever. Cada dia que a gente chega e vê que nasceu mais um, é uma alegria! Vocês nos receberam com todo carinho, com toda confiança na equipe e hoje queremos retribuir um pouquinho desse carinho, dessa confiança.

Dar à luz é um ato da mulher

Dr. Ivo Lopes, diretor administrativo do Sofia, participou da comemoração:

“Boa tarde, primeiro eu quero agradecer a confiança que vocês tiveram na equipe que chegou até seus lares para atendê-los. Eu nasci em casa e nasci com parteira, certo? Tenho mais de 70 anos, de lá pra cá houve uma inversão no Brasil, as pessoas saíram da casa para ter seus filhos no hospital; eu acho que o parto domiciliar é um retorno necessário pra mostrar que a mulher é quem decide sobre sua vida. Nós, profissionais da saúde, interferimos mais do que devíamos e isso, eu acredito, não está certo. Queria agradecer a vocês e espero que aprovem esta instituição, que tem a honra de fazer isso pelo SUS. O SUS custeia isso e é um avanço! Eu sou médico, a minha categoria não apoia parto domiciliar, de certa forma, não apoia não é só no lar não, não apoia a mulher desejar ter um parto normal dentro do hospital, eles querem é fazer cesariana, cesariana, cesariana…porque fazer cesariana é muito fácil pra nós, médicos. Se você me procura, com 1h eu resolvo seu problema  e acabou…mas não é o melhor para a mulher,   não é o melhor para o bebê. Ele precisa passar pelo canal vaginal,  precisa   sentir esse amor da mulher. Eu acho que todas vocês lutaram dentro da família pela opção que   fizeram, vocês encararam e confiaram em si mesmas, os companheiros deram apoio, senão vocês também não conseguiriam. Dar à luz é um ato da mulher, não é um ato de nenhuma categoria, nem dos médicos, nem das enfermeiras. Parabéns! Um feliz ano novo!

A comemoração terminou com as palavras da coordenadora do projeto, Eliane Rabelo: “Nós acreditamos muito que o mundo pode melhorar a cada criança que nasce e acho que vocês são nosso maior exemplo, que nos confiaram esse trabalho. A gente só acompanhou. A vitória, a conquista foi toda de vocês. Obrigada.