Sentidos do Nascer

quinta-feira, 5 de março de 2015 as 15:47

Em março, terá início em Belo Horizonte a intervenção ‘Sentidos do Nascer’. A UFMG será a primeira a receber a exposição, em caráter experimental e sem visitação aberta. De 7 a 26 de abril, abre para o público no Parque Municipal. Vinte e quatro voluntários e bolsistas selecionados para trabalhar como mediadores nesta intervenção visitaram o Hospital Sofia Feldman. O objetivo foi sensibilizá-los para a causa da humanização da assistência ao parto e nascimento, foco do projeto patrocinado pela Fundação Bill Gates e que conta entre os parceiros com a Secretaria Municipal de Saúde, UFMG e CNPQ.   Do Parque Municipal irá para o Boulevard Shopping e, em seguida, viaja para Brasília e Rio de Janeiro, ficando três meses em cada cidade.

A intervenção conta com três contêineres onde o visitante terá a oportunidade de vivenciar experiências de gravidez. Público alvo: toda a sociedade – gestantes, casais grávidos, gestores, profissionais de saúde, estudantes, sem limite de idade. Ao final, busca alcançar 30 mil pessoas, 400 visitantes por dia.

Ativista

Entre os 47 voluntários e bolsistas, há acadêmicos e profissionais de enfermagem, psicologia, publicidade, jornalismo, relações públicas, letras, design de moda, doula, eco designer, atriz, cantora e fotógrafa.  Na visita ao Sofia, eles percorreram as unidades de cuidado do Hospital, passando pela Casa da Gestante Zilda Arns, Casa do Bebê, Núcleo de Terapias Integrativas e Complementares, Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano e Centro de Parto Normal Helena Greco, Alojamento Conjunto, UTI e UCI.

A fotógrafa Milena Gomes estava entre eles. Ela teve um parto domiciliar assistido pela equipe do Sofia: “Na gestação do Raul, em 2014, virei ativista, entusiasta do parto natural. Quando você passa pela experiência boa em seu parto quer retornar para a comunidade, fica com a obrigação de ajudar os outros”, explicou.

Mudar a cultura do parto

O ‘Sentidos do Nascer’ foi selecionado entre 170 projetos pela Fundação Bill Gates e CNPQ. É um edital de pesquisa que vai monitorar o efeito da intervenção na percepção sobre parto pelos participantes. Parceiros: UFMG, USP, PUC Rio e PUC Minas, UNB, Fundação Osvaldo Cruz, entre outras.

“Queríamos fazer um projeto de valorização do parto normal, que provocasse reflexão crítica, que comovesse as pessoas e afetasse sua percepção sobre parto e nascimento – explicou a pediatra e articuladora do Projeto Sônia Lansky – “o parto perdeu o sentido, num cenário de 56,7% de cesarianas, queremos re-significar o nascimento e contribuir com a redução da cesárea e da prematuridade iatrogênica. A exposição é provocativa, intencional, abre a polêmica. Queremos intervir no processo cultural. Sabemos que vai levar anos a mudança do paradigma; esta é a nossa pequena contribuição” concluiu.

Impressões

Fabiana Guimarães – também bolsista do Projeto -  tem dois bebês: “o primeiro foi cesárea (Bento) sem indicação, em hospital privado. Fiquei revoltada e frustrada. Entrei contrariada para a cesárea, chorando. Vivi violência obstétrica. Quando meu marido chegou, ele já estava saindo da minha barriga. Tiraram o bebê e me deixaram 3 horas sozinha. No segundo (Roque), em junho de 2013, busquei informações. Ganhei no sistema privado, com uma médica da linha humanista, bem diferente, completamente diferente, parto e pós parto humanizados. Você é dona da situação, tudo conversado, carinho o tempo todo. Teve o contato pele a pele, teve a doula, você não se sente sozinha” – argumentou.

Corredor Controverso

Um dos contêineres da intervenção ‘Sentidos do Nascer’ chama-se ‘Corredor da Controvérsia’. Em seis monitores – como os que existem no Museu Minas Gerais Vale, oito personagens vão conversar entre si, enfocando diferentes visões sobre o parto e as falas que os casais grávidos escutam durante a gestação de seus filhos. “Apresenta a multiplicidade de pontos de vista e o senso comum sobre o nascimento” – informou Sônia Lansky.

O útero

O visitante vai entrar no primeiro contêiner e ouvirá a voz de um bebê, sons de batimentos cardíacos e ruídos de água que reproduzem os sons internos que a criança ouve quando está no ventre da mãe.  Ele entra em um útero, uma sala escura, onde tem uma instalação, um sofá macio, que afunda e representa a placenta. Enrola no cordão umbilical e depois sai pelo canal estreito de parto. O bebê fala que agora está pronto para nascer, que seu pulmão está maduro… Atravessa um corredor estreito e comprido, onde está cerceado por um tecido macio, simulando o nascimento de um bebê por parto vaginal. “O objetivo é levar as pessoas a se colocar no lugar do bebê, uma vivência sensorial da experiência do nascimento em um parto humanizado”, explica.

Grande colo

Ao final, o visitante se depara com o quadro de uma mãe amamentando – “um grande colo” – e chega ao espaço de convivência, onde encontrará frases bonitas, fotos de parto, vídeos, informações sobre parto normal e cesárea e onde ocorrerá rodas de conversa. O objetivo é continuar a discussão nos sites, Facebook e nas redes sociais.

Painéis abordarão os seguintes temas:

1 – O tempo – a pressa ao retirar o bebê e o tempo necessário para o parto, que deve ser respeitado.

2 – O nascimento na história.

3 – Parto natural humanizado, as boas práticas.

4 – Cesariana – informações sobre a cirurgia.

5 – De quem é o parto – sobre o protagonismo da mulher.

6 – Prematuridade – o que é e o seu aumento no Brasil.

7 – Violência obstétrica – sofrida pelas mulheres brasileiras em seus partos.