Encontro das Doulas da Rede SUS BH

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017 as 12:37

O que faz uma esteticista aposentada, uma chefe de cozinha e uma jovem de 24 anos tornarem-se doulas comunitárias? Rosângela Divina, Marilaine Reis e Ana Gabriela Resende são doulas há seis meses no Hospital das Clínicas, o último a aderir à política pública proposta pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte para as maternidades da Rede SUS BH, a partir de 1999. Elas participaram ontem, dia 19 de janeiro, de um encontro das doulas comunitárias que atuam nas 7 maternidades públicas de Belo Horizonte: Hospital Sofia Feldman, Maternidade Odete Valadares, Hospital Odilon Behrens, Hospital Júlia Kubitschek, Hospital Risoleta Neves, Hospital das Clínicas e a Santa Casa de Misericórdia, realizado na Exposição Sentidos do Nascer, no Parque das Mangabeiras.

“Belo Horizonte foi um marco histórico na política de doulas no país e desponta no cenário nacional porque temos Doulas em todas as maternidades”, informou a presidente da Comissão Perinatal e articuladora do Movimento BH pelo Parto Normal, a pediatra Sônia Lanksy.  Oito doulas do Sofia estiveram presentes, junto às psicólogas Claudinéia Leal e  Júlia Amaral Horta,   coordenadora das Doulas de Belo Horizonte. Depois de uma roda de conversa, o psicólogo e terapeuta oriental, Wilson Moura, ensinou algumas técnicas de massagens corporais que podem ser usadas no atendimento às mulheres.

HC tem doulas

Para a esteticista aposentada Rosangela Divina, de 62 anos, ser doula “é vivenciar na alma aquilo que aquelas mulheres necessitam.” O Hospital das Clínicas de Belo Horizonte foi a última maternidade a aceitar as doulas em sua equipe multiprofissional. Elas começaram a atuar em julho de 2016. A chefe de cozinha Marilaine Reis reconhece que este avanço se deve ao incentivo da enfermeira obstetra, Odete Pregal: “ela é fundamental, é a ela que reportamos nossas necessidades; nos dá apoio sempre que precisamos”. Já a jovem Ana Gabriela escolheu a doulagem ao perceber que “os médicos sempre nos olham de cima, dão pouco protagonismo à mulher, como se eles soubessem mais do que nós sobre nosso corpo”. O Hospital das Clínicas também criou uma ‘Sala das Boas Práticas’: “uma novidade, estreamos o primeiro escalda-pés na semana passada com uma parturiente, que ficou muito satisfeita. Estimula o vínculo entre nós e a mulher”, completou a mais nova das doulas do HC.

Para Odete Pregal “é nítida a transformação do HC antes e depois das Doulas. A diferença no tratamento da equipe médica, antes era mais difícil. Nunca pensei que isto seria tão fácil!”

Um ciclo sagrado

Para Júlia Horta, a Doula Esther Kac é uma referência em Belo Horizonte. É Doula há dez anos na Maternidade Odete Valadares. “Ser Doula é a descoberta de uma atividade que engrandece a gente. É uma escolha, eu escolhi e faço de coração mesmo, dando o melhor de mim”, testemunhou. Mas, qual a importância para a mulher assistida por uma Doula? “Ela recebe colo, aconchego, respeito, entendimento. A Doula deve saber ouvir e dar a mulher a vivência do momento que ela está fechando, um ciclo sagrado”, opinou.

Odilon Behrens abraçou as doulas

Cintia Mengotto é uma das doulas do Hospital Odilon Behrens. Em um momento na vida teve depressão. Está há dois anos no Hospital. “Fiquei mais tranquila, mais centrada e com um olhar mais atento para as pessoas”. As Doulas do Odilon contam o apoio da coordenadora, a enfermeira obstetra Rosângela Lima. Segundo ela, “estamos vivendo uma fase boa no Odilon. O hospital já abraçou as Doulas. Temos uma relação muito boa a ponto dos médicos e enfermeiras obstetras sentirem falta quando não estão no plantão”.

A doula dá sentido ao nascer

O evento foi aberto pela pediatra Sônia Lansky, que ressaltou a importância da presença das Doulas do município estarem ali reunidas e informou que profissionais das unidades básicas de saúde também estão frequentando a exposição Sentidos do Nascer. “Para ajudar as mulheres a terem uma vivência mais prazerosa, transformar aquele, em um momento de alegria. A doula está ali para isto”.

Júlia Horta disse que a atuação da Doula tem tudo a ver com o sentido do nascer. “Infelizmente, nascer hoje no nosso país virou uma linha de produção, sem sentimento, significados. Vemos um momento dos mais importantes da vida ser banalizado. Será que perdemos também outros sentidos? Pergunta.

Citou o obstetra Michel Odent, “a cura do mundo começa pela cura do nascimento”. Como psicóloga, analisa que o nascimento representa a primeira relação do ser humano, base de toda a sua estrutura emocional e psíquica. Sabemos da importância deste amor que concebe, pare, acolhe, cuida. A Doula dá o suporte, a base para o outro viver o parto e nascimento de forma plena e satisfatória. O nascimento deve voltar a ser a celebração da vida e do amor”, acentuou.

Júlia explicou que, com a hospitalização da assistência, a Doula passou a ser um cuidado diferenciado. “A doula, no entanto, faz parte da necessidade humana em toda a história da humanidade”. Ela disse que a equipe percebe a diferença, porque aquela mulher não gritou? Por que o parto foi mais rápido? Enfatizou: “não adianta todas estas Doulas se não tem uma gestão favorável. O investimento é pouco e o custo é efetivo”.

Amor gera amor

A grande novidade do encontro foi a presença de Vera Figueiredo, ex-consultora do Ministério da Saúde, como Doula do Odete Valadares. “Sou assistente social de formação, sempre militei para o parto e o nascimento saudáveis. Faltava ficar bem íntima das nossas gestantes. Ser Doula não é um discurso, tem muito mais a ver com o silêncio, com o movimento de mãos, de abraço, de toque, fazer a mulher sentir que ela é poderosa. Trocar afetos. Saio dos plantões feliz, plena, com mais amor para dar. Nada se compara a isto. Ser Doula comunitária, não há lugar mais forte no Sus para estar”

Rosa Duarte, no Odete há quatro anos, relatou que fica muito incomodada de ver as mulheres chegando sem preparação para o parto, sem informações. Sugeriu que as Doulas fossem aos postos de saúde e participassem de palestras de esclarecimento. Neusa Maria Oliveira, do Centro de Saúde Dom Cabral informou que, nesta UBS, são feitos encontros semanais com as gestantes, cada mês com uma temática. “Nosso objetivo é desmistificar muitas coisas, mostrando que o parto pode ser uma experiência positiva. Temos plantados sementinhas”.

Júlia Horta ressaltou: “este encontro é para a união de forças. Somos agentes de mudança!” E fez um pedido especial às Doulas: “Nenhuma mulher precisa ser ensinada como parir. Cuidado para não assumir o protagonismo do parto, o lugar da mulher.”  “Quero que todas as mulheres tenham Doulas. A mudança é lenta, mas vai se alastrando”, acredita Sônia Lansky. “É uma questão de cidadania no parto”.