Pré-Natal baseado em evidências – Intervenção na Rede SUS BH

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017 as 9:10

O obstetra Edson Borges é o que se poderia chamar de um médico 100% SUS. Quando se formou até tentou atender em consultório particular, mas decidiu pela saúde pública. Ele é coordenador da Residência Médica do Hospital Sofia Feldman e há três anos se debruça sobre um projeto que agora está saindo do papel e virando realidade. Um projeto inédito e inovador que pode se tornar modelo para outras instituições do SUS. É o Pré-Natal Baseado em Evidências – o PRENAB. Objetivo? Capacitar os profissionais de saúde, médicos e enfermeiras generalistas para o atendimento no pré-natal, aprimorando a assistência a gestantes nos postos de saúde. A iniciativa partiu do Hospital Sofia Feldman, referência para as gestantes da região, e envolve as 19 UBS do Distrito Norte.

Ontem, dia 26 de janeiro, ocorreu o II Módulo; o primeiro aconteceu em dezembro e tratou do tema “Organização do pré-natal e estilo de vida e comportamento”. O curso, no total, conta com 18 horas/aulas em 4 módulos. Segundo Dr. Edson, no Brasil o pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde são, em sua maioria, realizados por médicos e   enfermeiros não especialistas, como os que integram o Programa Saúde da Família. Informou que, no Brasil, há pelo menos 300 mil profissionais atendendo pré-natal e nem todos têm treinamento para este atendimento. “Há uma percepção generalizada que o pré-natal tem problemas de qualidade; há, também, indícios de que pode melhorar. Aumentou-se a quantidade de consultas, com a Rede Cegonha ampliou ainda mais; melhorou o acesso da gestante ao pré-natal (o Data-SUS mostra que mais de 75% tem no mínimo 6 consulta) porém, isto não impactou nos índices de mortalidade e morbidade neonatal e nos de cesarianas”, enfatizou.

Momento de reflexão e análise

O médico pergunta: “estamos preparando a mulher para o parto?” Se não estamos cumprindo o objetivo mesmo aumentando o número de consultas, fica claro que se deve ter problemas de qualidade na assistência. Este Curso tem o objetivo de refletir sobre o nosso objetivo e reavaliar a nossa prática”, completou.

O pré-natal – segundo ele – tem um ritual. “A mulher passa pelo acolhimento, os profissionais pedem exames, prescrevem remédios, mas não são observados aspectos como obesidade, tabagismo, violência contra a mulher que têm impacto sobre a gestação”. Para Edson Borges, “o PRENAB é mais que um curso, é uma intervenção na assistência”. Explicou que este projeto piloto poderá ser replicado em outras maternidades do SUS e, que já há interesse nele por parte de profissionais de saúde do Rio Grande do Sul.

A assistente social Patrícia Guimarães, do Centro de Educação em Saúde, trabalha com educação permanente. “Este curso é inédito e pioneiro, abre um canal de comunicação entre os dois níveis de atenção (atenção básica – os postos de saúde – com a atenção terciária – Hospital Sofia Feldman).  Esta conversa entre a instituição e as UBS aprimora o trabalho e será bom para o usuário”, opinou.

O Curso favorece a interação entre os participantes, propicia o compartilhamento de experiências.  Patrícia informou que “há um protocolo de pré-natal saindo do forno, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Saúde. Vai aprimorar o fluxo, o trânsito do usuário na rede e o trabalho de cada ponto desta rede”.

Motivação para o dia a dia

A médica generalista Giselle Apoliane Alves atua no Centro de Saúde Providência há pouco mais de um ano. Ela acha que tem muitas falhas no atendimento ao pré-natal, principalmente no registro das informações do prontuário. “Ele não detalha se houve alguma intercorrência, faltam exames para avaliar riscos. Estamos tentando fazer um prontuário mais completo. O curso, além de abrir a cabeça das pessoas, leva à reflexão sobre como fazer o pré-natal de qualidade, também realiza uma reciclagem dos profissionais”.

“Eu amo o SUS, gosto do meu trabalho, faço com muito amor”, declarou a médica, que já percebe resultados desde o primeiro módulo, “A gente sai com mais ânimo e mais motivação e qualidade para enfrentar tanta coisa no nosso dia a dia.”

Primeiros resultados

Dirce Braga da Silva é enfermeira generalista da Gerência de Saúde Norte e também acha ótima esta interação entre UBS e Sofia. “Nosso objetivo é qualificar e melhorar a assistência oferecida às gestantes”. A enfermeira obstetra Aline Reis, referência técnica da atenção à mulher na Regional Norte, vê falhas na assistência. Temos falhas no segmento pré-natal, falta conhecimento do protocolo; o profissional não reconhece vulnerabilidades. Eu já percebo uma melhoria no acompanhamento dos casos, depois do primeiro curso. Decidimos investir na capacitação dos profissionais e sensibilização de gestores”.

A enfermeira obstetra Maíra Cardoso Pereira atua no Anexo Zilah Sposito, na UBS Jaqueline, e conta que lá eles já executam algumas ações: “A gente recomenda visita ao hospital de referência, temos cursos para gestantes mensais e grupo de lactentes; damos até Curso de Shantala (massagem no bebê).  Neste módulo, Maíra participou como tutora juntamente com Aline Reis. Elas falaram sobre “Toxoplasmose”.

“Confio muito no SUS, acredito que é uma política que tem tudo para dar certo. Eu me orgulho de trabalhar no SUS”, afirmou.