Audiência Pública define ações em prol do Sofia

quarta-feira, 22 de março de 2017 as 16:25

Buscar uma solução sustentável para a grave situação econômico-financeira enfrentada pelo Hospital Sofia Feldman. Este foi o objetivo da Audiência Pública convocada pela Câmara Municipal de Belo Horizonte e que lotou o Auditório Sabiá, ontem, 21 de março, à noite, com trabalhadores, conselheiros, voluntários, usuários e políticos. Ao final da audiência, o vereador Cláudio da Drogaria Duarte informou que formará uma Comissão Parlamentar para o estudo da situação do Hospital e que o trabalho começará esta semana. “Temos o objetivo de buscar junto ao executivo municipal uma solução de ordem financeira para que a maternidade sobreviva e se mantenha aberta”, explicou.

A diretoria do Sofia confirmou que os R$ 5 milhões de adiantamento prometidos pelo prefeito Alexandre Kalil ainda não chegaram aos cofres do Hospital e que a situação continua a mesma. “O Sofia está numa crise aguda e estamos diminuindo os atendimentos em 20%. Se não mudar o quadro, daqui a três meses a situação vai se agravar. O prefeito assumiu o compromisso não só de cobrir o déficit para acertar com os funcionários, mas de lutar pelo Hospital junto ao Ministério da Saúde. Assim, a confiança aumentou, mas estamos aguardando”, afirmou o diretor técnico-administrativo do Sofia, Ivo Lopes.

Estiveram presentes os vereadores da Comissão de Saúde, Cláudio da Drogaria Duarte, Bim da Ambulância e Catatau da Itatiaia. A mesa foi composta por eles, mais o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Bruno Pedralva, a presidente do Conselho Local de Saúde, Simone Gaia, o diretor técnico-administrativo, Ivo Lopes, a representante do Secretário Municipal de Saúde, Jackson Machado Pinto, Cristiane Ferreti e os vereadores Reinaldo Gomes e Gilson Reis.  O Secretário Estadual de Saúde, Sávio Souza Cruz,  foi convidado, mas não compareceu e nem enviou representante. Também compareceram representantes dos deputados federais Adelmo Leão e Marcelo Aro e dos vereadores Eduardo da Ambulância e Áurea Carolina.

Um novo horizonte

Todos os vereadores se colocaram dispostos a lutar pelo Sofia. Cláudio da Drogaria Duarte disse que é necessário um fundo suficiente para suprir as demandas. “Nós, como parlamentares, temos que encontrar uma solução definitiva para este problema. O Sofia é uma instituição de renome, referência não só para BH, mas para todo o Brasil. Faz um trabalho bonito que tem que ser enaltecido, oferecendo assistência humanizada para BH, região metropolitana e cerca de 300 municípios mineiros. Temos que sair daqui com um novo horizonte, uma solução definitiva.

“A Câmara é 100% Sofia”

Catatau da Itatiaia   garantiu que vai se empenhar na busca de uma solução: “A Câmara de BH é 100% Sofia”. Bim da Ambulância falou que a Comissão Parlamentar buscará uma maior interlocução com o executivo para cobrar prioridade na área da saúde, “que foi o seu diferencial. Vou cobrar responsabilidade do município com o Sofia, a mesma sensibilidade que teve quando veio ao Hospital e foi decisivo quanto à ajuda emergencial. Estamos imbuídos nesta luta. O Sofia precisa de socorro e não pode fechar as portas”.

“Temos que salvar o Sofia”

Gilson Reis relatou que seu filho nasceu no Sofia, “uma experiência inesquecível”. Declarou 100% de adesão ao Projeto Sofia Feldman. “O repasse do Kalil dará um alívio momentâneo, mas precisamos buscar uma política permanente para o Hospital. A audiência tem esta perspectiva. Kalil foi à Brasília, vamos procurar saber o que foi resolvido.” Gilson lembrou: “sofremos um golpe de estado, o Brasil vive uma onda ultraliberal que pretende diminuir o SUS pelos próximos 20 anos. Não falta dinheiro, o que faltam são objetivos e interesses por trás.  Esta é uma opção política. Temos que elevar o nosso tom e fortalecer esta maternidade. Temos que salvar o Sofia”.

Cláudio da Drogaria Duarte corrobora com o discurso de Gilson: “Não falta dinheiro para a saúde. Temos R$ 3.467.516.450,00 de recursos para 2017. Temos que ver como aplicar este recurso e contemplar todas as instituições e usuários do SUS”.

Um desserviço ao Sofia

Dr. Nilton acentuou que o Sofia tem um papel fundamental na saúde de BH e para o país, sendo a maior maternidade do Brasil. “Assumo o compromisso de apoiar e lutar por mais recursos para o Sofia manter o funcionamento a pleno vapor. Se fechar as portas há um colapso no sistema de saúde de BH.” Disse que a saúde nunca foi uma prioridade para a Gestão Márcio Lacerda. “Ele fez um desserviço ao Sofia quando cortou os recursos. Estou muito feliz com esta nova gestão. Me comprometo a cobrar do prefeito e definir um valor mensal para sanar o déficit do Sofia.”

Reinaldo Gomes contou que mora perto do hospital e tem orgulho da maternidade vizinha. “Eu vi o nascimento deste hospital, que atende com qualidade. Mas, não é amor o que o Sofia precisa, é de dinheiro, que nossos governantes façam o que precisa ser feito. Maldito prefeito Márcio Lacerda, que não repassou nada para o Sofia. É lamentável”.

A força popular

“Nosso movimento é de luta e solidariedade ao Sofia. O movimento #SomosSofia apenas começou e mostrou a força popular. O Sofia tem uma força imensurável, que transcende, que vem das mulheres. O Facebook do Hospital começou a bombar, com várias usuárias postando vídeos de apoio. Por que somos Sofia? Porque a instituição merece palmas, pelo trabalho das enfermeiras obstetras, das nossas queridas doulas, pela presença da comunidade. Enfrentam a corporação médica, a indústria da cesariana. É uma boniteza, atende com humanidade os usuários” – declarou Bruno Pedralva, presidente do Conselho Municipal de Saúde. “O governo estadual repassa 12% e ainda com atrasos. O estado de Minas Gerais tem que botar dinheiro no Sofia. Estado e município têm suas partes a cumprir.” O Conselho Estadual de Saúde não mandou representante.

Simone Gaia, do Conselho de Saúde Local, disse que espera que “o Hospital continue com esta filosofia de humanização e dando atendimento digno e de qualidade para os cidadãos. Dói em nós negar vagas, pois é um direito deles. É uma causa justa e nobre, temos que lutar por ela hoje e sempre”.

Fala municipal

Cristine Ferreti, representante do Secretário Municipal de Saúde, não soube precisar a data de envio dos recursos prometidos por Kalil. “O Sofia faz 45% dos partos do SUS BH. Que esta iniciativa, com o apoio dos parlamentares movimente outros entes federados e consiga recursos para o Hospital Sofia Feldman.”

UFMG no apoio

A professora Kleyde Ventura, da Escola de Enfermagem da UFMG, compareceu à audiência. Por quê? “Para reforçar a defesa do Sofia e do SUS. Este serviço nos representa, pela ação democrática, as boas práticas na gestação e porque acolhe a mulher e a criança com cuidado integral baseado nas evidências científicas. Porque, aqui, é a casa das mulheres.” Também estiveram presentes a professora  da UFMG, Elisângela Dittz e a presidente da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde, a pediatra Sônia Lansky.

Subfinanciamento crônico

Segundo Dr. Ivo Lopes, diretor técnico-administrativo do Sofia, “estamos sendo estrangulados pelo subfinanciamento do SUS. Dá pra aguentar mais 3 meses. Parece que o Kalil ficou sensibilizado com a situação, mas o repasse ainda não chegou. Estamos esperando para apagar a fogueira. Temos um déficit de R$ 1 milhão mensal. Não estamos aguentando esperar. O custeio é o mesmo desde 2013, entretanto, não houve aumento nos recursos repassados. É um subfinanciamento crônico. Vem de muitos anos. Quando nego vaga para uma mãe, na verdade estou negando duas vagas, a dela e a do filho. Estamos aqui para sensibilizar a sociedade e os gestores, para que não deixem esta instituição fechar, pois ela atende a um terço dos partos do SUS/ BH e a 300 municípios mineiros. Há usuárias que moram a 100, 200 e até 300 km de BH e a maioria é paciente de alto risco. Como é que fica a situação para elas, muitas vezes não contam com hospital e UPA em sua região?”, pergunta.