Africanas se despedem do Sofia

segunda-feira, 27 de março de 2017 as 8:11

Elas atravessaram o Oceano em direção ao Brasil e completaram na última sexta-feira, dia 24 de março, três semanas no Hospital Sofia Feldman. As quinze enfermeiras vieram de Angola e Moçambique pelas mãos das agências de cooperação do Japão (JICA) e do Brasil (ABC/MRE) participar do I Curso Internacional de Atenção Humanizada à Mulher e ao Recém-Nascido. Este é o primeiro de outros cinco cursos que acontecerão nos próximos cinco anos no Hospital Sofia Feldman, até 2020. A parceria entre as agências de cooperação e a instituição teve início em 2011 e até 2014 houve um curso por ano. Por que vieram de tão longe? Para aprender com os gestores e profissionais do Hospital a assistência humanizada oferecida às famílias, mulheres e crianças na Obstetrícia e na Neonatologia, e que é referência para as políticas públicas do Brasil. Todas ficaram impactadas com a assistência, especialmente, com o direito a um acompanhante no parto, de escolha da mulher. Por lá, costumam permitir apenas a presença de acompanhante do sexo feminino. Também ressaltaram o trabalho em equipe multiprofissional.

Os alunos se reuniram com os diretores, preceptores e trabalhadores no Auditório Sabiá, onde apresentaram seus Planos de Trabalho, que definem os passos a serem adotados no retorno aos países de origem.

Chegaram ao Sofia dia 6 de março. Desde então, aprenderam os princípios e diretrizes do SUS, as políticas públicas e as redes de atenção à saúde do Programa Rede Cegonha; noções de biossegurança e modelos de gestão participativa. Foram informados sobre as técnicas baseadas em evidências científicas na assistência à mulher e à criança, as boas práticas no parto e na assistência neonatal e os métodos não farmacológicos de alívio à dor no trabalho de parto. O curso focou, também, na participação da família no cuidado, na violência contra a mulher e a criança, nas urgências e emergências maternas e neonatal, entre outros. Elas conheceram as doulas, mulheres que confortam as mulheres no trabalho de parto, as estratégias da Casa do Bebê e Casa da Gestante, o Método Canguru, a saúde do trabalhador e o manejo de  doenças sexualmente transmissíveis.

Uma casa que exala amor!

Nas outras edições do Curso, vieram profissionais do Caribe, América Latina e África. Desta vez, resolveram focar em dois países – Angola e Moçambique – e trazer de lá enfermeiras e gestoras da saúde. A coordenação geral do curso é da Dra. Lélia Maria Madeira. Ministram as aulas teóricas e práticas: Ana Paula Vallerine, Izabela Viana, Carla Guanabens e Débora Lucas. Vera Bonazzi e Karla Caldeira orientam os Planos de Trabalho. Participam ainda: Paula Pimenta, Edson Borges, Cynthia Ribeiro e Águida Almeida Carvalho.

Lélia Madeira explicou que “o curso teve um conteúdo mais enxuto, mas  foi proveitoso. Atividades práticas mais ligadas ao cotidiano delas chamaram a atenção, como a Casa da Gestante e o Método Canguru. O acompanhante de parto virou a estrela; também gostaram do trabalho em equipe multiprofissional. Ontem, ao visitarmos a Creche, ouvi de uma delas que o Sofia é uma casa que exala o amor”, relatou.

Na avaliação da enfermeira obstetra Vera Bonazzi, “o curso foi um sucesso. Elas vão embora com uma bagagem muito boa, tanto na área do conhecimento de urgências e emergências em Obstetrícia, como com um olhar mais direcionado para as mulheres e os bebês. Viram, também, como a comunidade pode participar e se envolver na saúde da população. Estou feliz, o objetivo do Curso foi atingido. Elas, como líderes em seus locais de trabalho, podem sim, transformar o cuidado obstétrico em seus países”.

Sofia: atendimento de excelência

André Gustavo Barros, analista técnico da Agência de Cooperação do Brasil -ABC, chegou cedo ao Sofia na sexta feira para o encerramento do Curso. Ficou observando uma das últimas oficinas, de reanimação neonatal. Afirmou: “alcançamos o êxito pensado na ação de cooperação. Os cursos anteriores tinham um formato de múltiplos países, o que acabava pulverizando os impactos gerados, tanto a nível pessoal como institucional. Elas voltavam para seus países e não conseguiam replicar os conhecimentos. Eram indicadas pelas instituições; nesta edição, as profissionais e gestoras foram indicadas pelos ministérios da saúde de  Angola e Moçambique. Escolhemos estes dois países porque  lá havia mais demandas, uma estrutura mínima e vontade governamental de investir na capacitação”. Segundo ele, “o Sofia pratica uma assistência humanizada ao parto, tem estrutura e atua com excelência”, reconheceu.

Segundo a enfermeira obstetra Carla Guanabens, uma das professoras, “elas ficaram maravilhadas com o serviço, adoraram as práticas. Algumas, elas nunca viram. Acham que a gente tem mais recursos técnicos e fartura de água. Lá, por exemplo, não são oferecidas refeições para os usuários”. A enfermeira obstetra Cintia Ribeiro, do Comitê de Aleitamento Materno do Hospital Sofia Feldman, criou uma dinâmica para transmitir os ensinamentos sobre aleitamento materno, formando uma teia. “Nela, eu trouxe as ações que são aplicadas no Sofia. Ouvi a experiência de cada província e  também as fragilidades que elas vivenciam em seus serviços com  a questão do aleitamento materno. Ao final, foram criadas ações  a serem implantadas nas províncias, como rodas de conversa com gestantes, adolescentes e mulheres do campo.” Segundo Cintia, o Comitê de Aleitamento dará suporte para  as ações.

Com a palavra, as africanas:

Elsa Ernesto Trabuco – Gestora do Distrito de Mossorise – Moçambique

Eu mudei, era outra pessoa quando cheguei ao Sofia. Gostei do Atendimento às pessoas, todas são iguais, o carinho e as informações que recebem sobre todos os procedimentos. Outra coisa que me impactou foi a união dos colegas, o trabalho em equipe. Quando o profissional entra pra instituição, deixa os problemas lá fora.  Difícil ter uma morte com tantas pessoas envolvidas e unidas.

Mas o que mais me impactou foi a opção da mulher escolher a posição para o parto e o acompanhante do sexo masculino; lá, só aceitamos do sexo feminino.

Diferenças culturais? A  maneira de vestir. Em Moçambique, é um escândalo a mulher sair de saia curta, shortinho depois do parto. Normalmente, usa-se a Capulana (xale) comprida, toda protegida. Também gostei demais do refeitório, onde todos comem juntos.

Victória Tina Luís Uissiramo -– Gestora do Programa de Saúde Materno Infantil da Província de Niassa – Moçambique

Nossa assistência é semelhante a do Sofia. Porém, aqui tem mais recursos humanos e infraestrutura adequada. Temos uma sala de parto arcaica, ainda não modernizada, sem banheira, barras, bola. Temos um índice baixo de cesarianas, cerca de 10%. Normalmente, deixamos o parto seguir e intervimos apenas quando necessário.

Nguinamau Paulina – Gestora de Centro de Saúde, Luanda, Angola.

Termos 12 camas e realizamos 300 partos por mês. Deixamos o parto evoluir de forma normal. Episiotomia fazemos quando necessário. O que aprendi no Sofia? Humanização, a privacidade das pacientes e o acompanhante para o parto. Temos acompanhante, mas ele não entra na sala de parto. Aqui, há um grupo harmonizado, a equipe trabalha em sintonia um com o outro.

Quando voltar, vou informar aos chefes de que a primeira preocupação é ampliar a infraestrutura. Depois, preparar os profissionais no sentido de implementar esta forma de atendimento, sobretudo o acompanhante dos familiares.

Feliciana Ana Buta – Enfermeira, responsável por uma sala de parto, Província de Rangel, Angola.

Experiência muito positiva. Vou levar muita coisa. Fiquei impactada com a lei do acompanhante, o direito da gestante, a forma de trabalhar dos profissionais, sempre prontos a atender com disposição.

Temos planos para curto e médio prazo. Para já, informar os colegas e tentar implementar o direito a acompanhante. Aceitamos, normalmente, apenas do sexo feminino, por isso, o pai não entra. Também não temos privacidade. Vou propor o direito a um acompanhante da escolha da mulher.

Catarina Francisco Cassule – Enfermeira, Angola, Luanda

O que achei do Brasil? Ótimo, pessoas alegres, dispostas, tratam bem aos outros, são humanos, amparadoras.

Orientamos os pais a amamentar a criança até dois anos, mas com um mês a mãe tem de voltar a trabalhar, aí introduzimos outro leite. Normalmente, ela tem um mês antes do parto e dois depois do parto, não é como aqui que a mulher tem  direito a quatro meses de licença.

Branca Miguel Manoel – Chefe da Sala de Parto, Luanda, Angola

Como é o parto em Angola?  Não é totalmente como no Sofia. A posição ela escolhe, alguns partos são realizados na posição deitada na cama (litotomia). É uma cama normal, não tem aqueles aros para auxiliar a mulher a  agachar no trabalho de parto.

Gostei de quase tudo no Sofia. Me impactou o acolhimento e o acompanhante na sala de parto. Minha prioridade ao voltar será apresentar o relatório de tudo e definir as prioridades. Lá, já temos um Comitê de Mortes Maternas.

Elisa Pinto João – Enfermeira de sala de parto – Angola

Tive três filhos, dois normais e um de cesárea. Há muita diferença na assistência de lá e daqui. Não temos acompanhantes no parto, nem a Casa da Gestante e Casa do Bebê. Pretendo levar para lá estas experiências.

O Sofia é uma casa para todos. Lugar de grande acolhimento e humanização para os usuários.

O povo brasileiro é acolhedor, alegre e trabalhador.

Maria Antônia Francisco Santana de Quissanga – Enfermeira – Angola

Está com saudades de Angola? Saudade grande, mas vou levar também muita saudade do Brasil e desta experiência vivida aqui.

Vai mudar a forma de assistir? Sim, o acolhimento da mulher e como lidar com os colegas; aqui, todos são unidos.

Carla Joaquina Filipe Nhassengo – Enfermeira, Província de Gaza – Moçambique

Sofia é amor, maravilha! Gostaria de que meu parto fosse aqui. Equipe carinhosa, doulas, massagens. Gostei e vou tentar implementar lá as práticas integrativas, a reunião de acompanhantes;   que não demandam muitos custos, e também o Método Canguru para os prematuros internados.

Esperança Taverde Feijão – Gestora do Programa de Saúde Materno Infantil, Província de Manica, Moçambique

O que vou fazer ao voltar? Levo como experiência a presença do parceiro na sala de parto. Assim como a participação dos familiares na saúde da mulher e da criança.

Lá temos a Casa de Espera, onde as mulheres grávidas que vêm de longe ficam hospedadas. Quero melhorar a Casa, assim como a Casa da Gestante. E expandir para outras unidades sanitárias.

Balbina Antônio Clemente Rafael – Enfermeira, Angola

Pretendo mudar as coisas por lá, principalmente em relação ao acompanhante no parto. Normalmente, lá entram pessoas do sexo feminino, tipo a sogra, a mãe; esposo não entra. Quero criar condições para que a parturiente tenha direito a suíte de parto, como aqui, com banheira para o parto na água. Nós temos biombos, mas não garantem a privacidade.

O Sofia para mim é amor, é vida! Vou levar muitas saudades.

Gostei muito da Casa do Bebê. Lá, quando o nenê nasce prematuro vai para casa. Aqui, ficam na Casa do Bebê para ganho de peso, o que reduz a mortalidade neonatal. Vou tentar implementar lá.

Maria Rosa da Victória Jacinto– Gestora – Zambeze – Moçambique

O que me impactou aqui foi a humanização, do pré-natal ao parto. Na UTI é possível fazer Mãe Canguru para a criança receber o calor da mãe, gostei disto. Lá, temos   a Casa de Espera, onde as grávidas ficam alojadas. Mas é diferente da Casa da Gestante, não tem enfermeiras de plantão permanente. Elas apenas passam por lá de manhã, não o dia todo.

Paula Vicente Molide – Enfermeira – Moçambique

Tenho três filhos, todos de parto normal. O parto lá se desenvolve sozinho. O médico atende as cesarianas. As mulheres não gostam de cesarianas porque deixam filhos pequenos em casa e precisam voltar para os trabalhos domésticos.

Uma frase para resumir o Sofia: É um mimo. Incomparável. Estamos muito longe desta realidade. Levo daqui muita coisa, a humanização. Vamos criar condições e convidar os homens a participarem no parto. Normalmente, eles são informados do nascimento quando chegam em casa do trabalho. Eles têm que aprender a valorizar a mulher.

Margarida Mateus João – Enfermeira, Angola

Emocionei ao ver o marido envolvendo a mulher durante o parto, isto alivia a dor! Lá, não permitimos acompanhantes. Gostei do espírito do trabalho em equipe e de ver o interesse das enfermeiras, a disponibilidade delas. Queremos, também, diminuir o índice de episiotomia. Ainda atendemos a parturiente em posição deitada (litotomia).

Fiquei emocionada com a entrega dos profissionais e a humanização para os trabalhadores, com creche, academia.  Vão trabalhar bem porque sabem que são bem tratados.

Esperança Antônio Manhaussane – -Responsável pela Maternidade do Hospital Rural de Chokwé, Província de Gaza – Moçambique

Gosto do meu nome, tenho muita esperança. Primeira coisa que vai partir de mim é a presença do parceiro na sala de parto, desde o pré-parto. Lá, só entram mulheres, não homens. Nossa enfermaria já conta com locais privativos, só faltam as cortinas.

Gostei, também, das rodas de conversa dos acompanhantes e das puérperas; e da Teia da Amamentação.

O Sofia é uma esperança para o seu bebê, que tenha um lugar verde como este para toda a mulher do mundo.