Sofia recebe enfermeiras obstetras para o Programa de Aprimoramento

quarta-feira, 12 de julho de 2017 as 13:28

Um grupo de enfermeiras obstetras de Pernambuco, Ceará, Alagoas e uma mineira de Uberlândia estiveram no Sofia de 19 a 30 de junho, por meio do Programa de Aprimoramento do Ministério da Saúde em parceria com a Escola de Enfermagem do Universidade Federal de Minas Gerais, EEUFMG que busca aprimorar a equipe de enfermagem obstétrica que trabalha no SUS e melhorar a qualidade da assistência à saúde da mulher e da criança. Após o Curso, elas se tornarão preceptoras em residências e especializações da enfermagem obstétrica.

Clara Anísia, de Fortaleza, contou que apesar da Maternidade Escola Assis Chateaubriand – MEAC ser referência na atenção ao parto normal para o Ceará, o índice de cesarianas é alto, 56%. “A atuação da enfermeira obstetra lá ainda é restrita, os médicos assumem muito da assistência, das tomadas de decisão. Nós partejamos [considera partejar a assistência oferecida à mulher durante o pré-parto], mas no momento do nascimento, já que somos hospital escola, a assistência é prioritariamente realizada pelos médicos e residentes”, informou.

A MEAC tem 9 quartos PPPs (pré-parto, parto e pós-parto) com escada de ling, bola e cavalinho.  “Nosso problema não é a estrutura física,  mas sim a atuação do enfermeiro obstetra, que é baixa. A meta de ampliação do atendimento pela enfermagem obstétrica é chegar aos  40% dos partos, pois  atualmente assistimos a apenas 15%”. Clara enfatiza: ” As mulheres gostam da nossa presença, se sentem à vontade para caminhar, fazem uso frequente dos métodos não farmacológicos de alívio da dor e têm dieta líquida livre”.

Clara vivenciou a prática de todos os setores do  Hospital e se declarou encantada pelo Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano da Costa Filho – “Casa de Parto”:  “saí apaixonada. Exemplo de humanização do nascimento, de respeito ao corpo da mulher. Estamos tão acostumadas com intervenções que passamos a desacreditar no potencial que a mulher tem de parir. Vi que não precisa. Assisti a um parto em que tudo que tive que fazer foi ficar preparada, esperando o bebê nascer”.

Transformações

A mineira Luana Rodriguez, de Uberlândia, trabalha no Hospital Maternidade Municipal Dr. Odelmo Leão Carneiro, onde são assistidos cerca de 280 partos por mês, sendo  55% de cesarianas.

Luana, que assistiu a oito partos no Sofia, contou que no Hospital em que atua ainda é pouca a participação das enfermeiras obstetras, mas que as transformações estão acontecendo. “Começou a mudar quando a especialização da Rede Cegonha teve início em dezembro. O Hospital tornou-se campo de estágio e nas quintas-feiras atuamos como preceptoras e acompanhamos dois partos de baixo risco. Isto gerou uma reflexão por parte dos outros profissionais, de fortalecimento da nossa atuação, passaram a ver que podemos fazer. E com isso, tivemos discussões sobre a atuação da enfermagem obstétrica”.

Aprender a assistir um parto na banheira não era o ideal de Luana Rodriguez. “Lá não temos banheira, vim para aprender coisas que estão dentro do meu contexto”.  A enfermeira veio com a pretensão de melhorar o desempenho profissional levando algo próximo à realidade de seu local de trabalho, “levar as experiências que tive e que elas possam fortalecer a assistência das enfermeiras obstetras, como profissionais que acompanham a assistência. Fazemos um trabalho diferenciado”.

Assim como Clara Anísia, Luana se encantou com a assistência prestada à mulher no Centro de Parto Normal Dr. David Capistrano da Costa Filho. “A energia da casa de parto é diferente, é um lugar muito gostoso de estar. A enfermeira obstetra que nos recebeu, Carla Michele, uma graça, colaborou para que eu sentisse esta afinidade. Gosto dessa linha de parto, sem intervenção. Eu entendo quando uma intervenção é necessária, mas me encanta o parto natural”. Luana fez questão de deixar registrada a sua satisfação com todos com quem teve contato no período da visita ao Sofia: “quero agradecer pela oportunidade, por todos os colaboradores que nos receberam, dos enfermeiros às pessoas da limpeza, às mulheres que permitiram que estivesse com elas neste momento do parto, aos administradores do Hospital. Fui muito bem recebida e acolhida, todos foram muito receptivos, cordiais e gentis”.

Natalia Palmoni, de Maceió, Alagoas, atua na Maternidade Escola Santa Mônica, que atende a cerca de 150 partos por mês, somente de alto risco. “O médico avalia a mulher e faz a internação, são 70% de cesáreas”. Natália explicou que o Hospital possui 5 quartos PPPs (pré-parto, parto e pós-parto) e que não funcionam por falta de recursos humanos.

Entre tudo o que vivenciou, Natália destacou que, mesmo o Sofia não tendo uma estrutura física tão diferente do seu local de trabalho,se disse impressionada com o que se consegue fazer aqui. “Não é nada de outro mundo, mas o que vocês fazem é muita coisa. A gente se apega às mulheres, a cada história. Sinto como se eu estivesse me doando mais”. Lembrou ainda de algo simples, mas que é um direito da usuária: “todos os trabalhadores se identificam para a mulher quando a acolhem e a gestante conhece o profissional pelo nome, ela consegue identificar as pessoas que a atenderam”.

Satisfeita com seu desempenho, Natália comentou que conseguiu realizar as atividades que cada setor exige e que a experiência no Sofia foi maravilhosa.

Cuidados de mãe pra filho

“Quando eu crescer quero ser assim. Aliás, vi que quero crescer para ser assim”, falou emocionada a enfermeira obstetra Michele Catunda do Hospital da Mulher e da Criança Eneida Soares Pessoa, de Maracanaú, Fortaleza. Ela contou que os dias que vivenciou no Sofia fortaleceram a visão da sua profissão, a enfermagem obstétrica: “aqui eu pude ver aquilo que acredito, vi que vale a pena continuar lutando, não dá pra parar. No Sofia, em tudo você vê um manejo diferenciado, é um cuidado muito materno, como se cada uma fosse mãe de uma paciente”.

Saudosa, Michele se lembrou do primeiro hospital em que trabalhou como enfermeira obstetra, a Santa Casa de Canindé. “O Sofia me fez lembrar de lá, recordei da irmã Zenilda, pediatra, que ia pro hospital todos os dias de madrugada, como o Dr. Ivo faz aqui. Ela passava na palestra sobre o aleitamento e uma vez disse algo que me lembro até hoje,  ‘a mulher é o único ser que amamenta olhando face a face o seu filho, sentindo o pulsar do coração dele’, fico emocionada”. A experiência de Michele é em um Centro de Parto Normal. Ela registra que lá em Maracanaú a enfermeira obstetra tem uma boa autonomia, porém, a discussão de casos não é  feita com toda a equipe, mas apenas  entre os obstetras”.

Ela acredita que falta visão por parte de alguns profissionais sobre a atuação da enfermagem obstétrica: “são muitas as dificuldades pela falta de visão, quem me gerencia não é enfermeiro obstetra. Pensa-se no quantitativo e não no qualitativo, não se tem a visão além do olhar”, desabafou.

O que vivenciou no Sofia Feldman durante os 15 dias ela vai levar para sua cidade: “vamos levar ideias daqui e plantar esta semente, este é o objetivo, de fortalecer a Rede, a equipe de enfermeiros obstetras que estão chegando, para que venham com uma linha de pensamento diferente, dentro das boas práticas, para trabalhar em Rede todos temos que falar a mesma língua”, concluiu a enfermeira obstetra Michele Catunda.