Sofia vai à África

quarta-feira, 12 de julho de 2017 as 14:16

“Água, luvas e oxigênio”. Estas são as demandas mais urgentes na assistência ao parto e nascimento em Moçambique. A conclusão foi das seis enfermeiras obstetras do Hospital Sofia Feldman que foram ao país com uma missão delegada pela JICA – Agência de Cooperação Internacional  do Japão e ABC – Agência de Cooperação do Brasil/MRE, em parceria com a instituição: visitar 16 distritos e fazer o levantamento de materiais e equipamentos necessários aos serviços locais. Ficaram por 15 dias vivenciando o dia a dia das unidades. Na visita, perceberam deficiências na higienização e a necessidade de treinamento da equipe em urgências e emergência, reanimação neonatal, hemorragias e na assistência ao parto.

Viagem Africa, Raquel, pré natal multidãoNo contato com cultura tão diversa, ficaram impactadas com as diferenças. Em alguns locais, viram na rua apenas homens, assim como nas compras no supermercado; eles vão à cidade vender carvão e ali ficam, dormindo ao relento, sem alimentos, até concluírem as vendas. Ouviram histórias de furto e foram recomendadas a se vestirem com roupas discretas e sem decotes e a usar sempre repelentes para evitar a malária. Nas estradas, mulheres caminham com suas dezenas de filhos até 20 quilômetros por dia para buscar uma lata d´água. “As crianças são gordinhas enquanto estão sendo amamentadas, o que é natural para as mulheres. Assim que são desmamadas, viram um palito”, observou a enfermeira obstetra Raquel Rabelo, que fez a viagem junto a outras cinco colegas: Ana Paula Vallerine, Débora Lucas, Eliane Rabelo, Isabela Viana Iglésias e Síntia Nascimento, e constatou que a fome grassa na região, mas que há várias ongs internacionais que fornecem suplementos alimentares.

Situação precária

Há hospitais que contam com apenas um médico; quem presta a maior parte dos serviço são as enfermeiras. Lá, eles contam com a enfermeira básica, a enfermeira elementar e o enfermeiro nível médio, que pode se licenciar, e passar a fazer cesáreas.  É alto o índice de mortalidade materna e neonatal, mas o país não conta com estatísticas precisas e como a maioria dos partos é realizada nas casas, há muita subnotificação. Enquanto no Brasil o índice de mortalidade materna é de 50/100.000 nascidos vivos, em Moçambique, o índice dos casos notificados está em 450/100.000, quando o ideal seria 35/100.000. Índice alto, também, de HIV, sífilis e malária. O relato é de Raquel Rabelo, que esteve no distrito de Nampula junto à colega Débora Lucas, que descreveu a região: “um lugar com praias paradisíacas, entre montanhas, e temperatura média de 35 graus”. Elas detectaram ali uma realidade vivenciada no Brasil nas décadas de 1940, quando as mulheres brasileiras tinham os filhos em casa com parteiras. Em Moçambique, 60% das crianças nascem em domicílio.

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O parto em Moçambique

“Nas maternidades, as mulheres podem deambular, têm um chá à disposição e quase todos os partos são normais. No trabalho de parto elas não podem escolher a posição, ganham em litotomia (deitadas), sem perneira. Podem ter acompanhante, mas apenas mulher. Os partos normais são sem intervenções, como a episiotomia, aplicação de ocitocina, manobra de Kristeller e anestesia. A laceração é suturada sem anestesia, usada apenas na cesárea; já a cirurgia acontece só em caso de urgência. Não usam os métodos não farmacológicos de alívio à dor no parto. Todas fazem o contato pele a pele”, detalhou a enfermeira Raquel Rabelo. “Fomos avaliar a estrutura, recursos humanos, materiais e equipamentos. Eles estão começando a institucionalizar e medicalizar o parto. ”

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A enfermeira enfatizou: “a situação é precária. As luvas são reutilizadas. Após os procedimentos são lavadas em uma mesma água e colocadas para secar. Os lençóis secam no chão. As mulheres dividem a mesma cama. As tesouras de cortar o cordão umbilical estão enferrujadas. Há pontos positivos, um movimento grande sobre planejamento familiar. Como os maridos não concordam, elas preferem as injeções de anticoncepcionais ou o Diu, mas apenas 20% usam os métodos. A amamentação é natural e elas não apresentam problemas nos seios, como fissuras e mastites. “Não existe sistematização nos processos de trabalho – continuou – eles não têm Neonatologia, nem formação para pediatra neonatólogo. Quando dois bebês nascem e um não está bem, eles investem no cuidado ao que está em melhor condição clínica”, esclareceu a enfermeira.

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Uma aventura

“A viagem foi uma aventura – contou Débora Lucas – “gastávamos 6 horas para rodar alguns quilômetros em estradas de terra. No entanto, com toda esta escassez, as mulheres estão sempre sorrindo.” Moçambique conta com 1.000 médicos no país, na maioria em Maputo. As mulheres têm entre 8 e 14 filhos. Muitos morrem, os que ficam vivos – segundo elas – são mesmo sobreviventes. Há, também, muita gente na rua vendendo roupas e tênis novos, doados pelos Estados Unidos. A base da alimentação é a mandioca ou o milho preparado em uma pasta que se chama Chima. A comida é assada na brasa. Eles fazem duas refeições uma pela manhã e outra no final da tarde. Não comem verduras, alimentos crus. É alto o índice de malária na região. “Há muitos estrangeiros no país -  contou Raquel Rabelo – os indianos são donos dos hotéis e os árabes do grande comércio. A população local só vende em feiras livres A mineração também é feita por pessoas de fora. Elas sempre mudam o tom de voz e abaixam a cabeça para falar com as autoridades, o que reproduz a estrutura hierárquica.”

Readequação do modelo de trabalho

Viagem África - Eliane

A dupla Síntia Nascimento e Eliane Rabelo visitou a Província de Zambezia e seis distritos. Ficaram hospedadas em acomodações da Igreja Católica. Perceberam, lá, a necessidade de readequação do modelo de trabalho dos serviços, de aprimoramento da higienização, da organização e da estrutura do trabalho. “Nosso papel foi observar, sem intervir”. Encontraram uma grande sobrecarga de trabalho, “como se fossem duas enfermeiras para todo um Sofia Feldman. Elas têm de atender a 150 consultas, planejamento familiar e os partos diariamente. As parturientes costumam andar até 45km para chegar à unidade, os partos são deitados e as enfermeiras ficam dirigindo o puxo, dizendo ‘força, mãezinha’. Sabemos que não há necessidade de ficar dando comandos”, detalhou Sintia Nascimento.

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Diante da grave realidade, a vontade de Síntia foi ficar lá por mais tempo, auxiliando na mudança da realidade. “Ajudar a humanizar o nascimento e oferecer a perspectiva de uma vida melhor para aquela população”. Ela também mudou depois da viagem.  “Estou mais tolerante, mais flexível, a experiência me fez repensar minha assistência, a minha essência enquanto profissional do cuidado e da enfermagem.”

Pessoas felizes

Izabela Viana Iglésias e Ana Paula Vallerine foram para a Província de Inhambane e ficaram em uma acomodação à beira de um estrada, num local com pato, marreco, cachorros, “parecia um hotel-fazenda”. Foram bem assessoradas por duas profissionais: uma do Ministério da Saúde e outra da localidade. “Equipe muito boa, me ajudou muito no nosso processo de trabalho. Tivemos uma grande afinidade, elas são muito corretas e o trabalho fluiu”, relatou Izabela. Elas encontraram por lá os mesmos problemas: “foi difícil, no aspecto da assistência e condições básicas de saúde pública”. Admite, entretanto, “podemos ajudar a mudar a realidade se o projeto tiver continuidade. Mesmo com toda a carência de água, energia, comida, eles são pessoas felizes, é a realidade que conhecem”.

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Próximos passos

No próximo mês, o obstetra e diretor clínico do Hospital Sofia Feldman, João Batista de Castro Lima, vai a Moçambique, sentar-se com representantes do Ministério da Saúde para ajudá-los a desenvolver novos fluxogramas. Depois da sua visita, as enfermeiras retornam à África para capacitar sobre urgências e emergências, reanimação neonatal, hemorragias e assistência ao parto. Elas também selecionaram profissionais de lá para uma visita ao Sofia. “Se a pessoa não está na linha de frente, não conhece a realidade do país. A moça do Ministério da Saúde que nos acompanhou, que mora na capital, ficou tão horrorizada como a gente ao ver a realidade no interior. Eles estão em busca da humanização da assistência”, reconheceu.

Fotos: arquivo pessoal