Moçambique tem lugar especial no coração do Sofia

segunda-feira, 28 de agosto de 2017 as 9:30

Três enfermeiras de Moçambique se despediram do Sofia. Vieram por intermédio da Agência Internacional de Cooperação do Japão – JICA para o curso “Vivenciando Tecnologias na Atenção à Mulher e ao Recém-nascido no Hospital Sofia Feldman”. Passaram duas semanas vivenciando a assistência humanizada oferecida às mulheres, crianças e famílias. Inicialmente, eram sete, quatro eram gestoras do Ministério da Saúde do país e já tinham ido embora. A despedida contou com a presença do diretor técnico e administrativo do Hospital,  Ivo Lopes, da coordenadora da Linha de Ensino e Pesquisa/LEP, Dra. Lélia Madeira e das ex-bolsistas da JICA, que visitaram Moçambique recentemente – Ana Paula Vallerine, Débora Lucas, Eliane Rabelo e Isabela Iglésias.

Despedida

As africanas consideraram valiosas as informações recebidas nas capacitações e agradeceram pela receptividade. “Minhas expectativas foram alcançadas. Aprendemos muito, levamos novas experiências. Apesar das dificuldades com recursos, faremos de tudo para manter a vida. Estou muito satisfeita por ter estado aqui, junto a pessoas incansáveis a nos ensinar. Obrigada por tudo!”, declarou Mariana Alexandre.

Para Stélia Deodita, “foi uma vivência oportuna. Estávamos precisando muito vir ao Sofia. Aprendemos muito, compartilhamos experiências na teoria e na prática. Fiquei impressionada com o nível de organização, um hospital enorme, com muitas demandas e, ainda assim, os serviços são muito bem organizados. Tudo muito bem documentado. Quem chega para pegar o plantão, tem todas as informações dos pacientes relatados. Todos estão muito conscientes de suas tarefas e comprometidos com as atividades. O que partilhamos aqui vamos levar para nossos colegas. Obrigada pelo calor recebido. Estamos muito distantes de nossas casas, mas em nenhum momento nos sentimos sozinhas. Espero que venham mais profissionais de Moçambique, é muito importante para nós”.

Agradecida Glória Macitela declarou “nunca me senti ausente de casa. Este calor é difícil de encontrar. Em termos de expectativas, foi possível alcançar os objetivos da capacitação – condução dos trabalhos de parto, manejo de hemorragias e reanimação neonatal. Vi que é possível pôr em prática o manejo com modelos anatômicos. O desafio de Moçambique é tê-los em todas as unidades. Percebi que nossas lacunas tem a ver com a falta de profissionais, são poucos. Temos que tentar atender a todos. É um desafio! Para que haja humanização, precisamos recursos. Nossos chefes do Ministério da Saúde estiveram aqui e viram a realidade. Acredito que vão tentar resolver esta questão. Foi minha primeira experiência com intubação de recém-nascidos. Pensávamos ser coisa de outro mundo. Vimos que é possível manipular estes casos quando necessário. Sofia está bem, tem muitos recursos humanos. Todo profissional sabe o que está a fazer e passar informações para os outros. Vamos tentar implementar esta organização em Moçambique. É importante termos todas as informações sobre os pacientes. Muito obrigada, vocês não se cansam de ensinar. Aprender é um processo gradual, acredito que vamos conseguir.”

Uma nova etapa

A enfermeira obstetra Débora Lucas admitiu que acabaram se envolvendo emocionalmente com as profissionais de Moçambique. “Estamos aqui de portas abertas para elas. Foi um enriquecimento pessoal e profissional para nós.”

Eliane Rabelo pontuou: “Muito bom tê-las aqui. Ver que estão entrosadas com a equipe. Estavam todos ansiosos por conhecê-las. Para nós, foi uma troca de experiências muito boa. Fortaleceu tanto nossas duplas [profissionais do Sofia foram em duplas para três distritos de Moçambique], como individualmente. Moçambique tem um lugar especial no coração do Sofia. Podem contar sempre conosco. Já estamos nos preparando para a nova etapa”.

Reanimação Neonatal

Em uma das últimas atividades, as enfermeiras se reuniram com os residentes em enfermagem obstétrica e relataram o seu cotidiano. “Somos muito atarefadas, às vezes não temos tempo nem para tomar um chá. Contamos com poucos recursos humanos. A mesma enfermeira atende no pré-parto, no parto, no pós- parto e até nas cesáreas, pois temos poucos médicos obstetras no interior”, relatou Glória Macitela, da Província de Inhambane. “A população vive em zonas remotas, com acesso difícil e muitas mulheres morrem longe do hospital, acabam tendo partos desassistidos ao lado da família. Os médicos estão concentrados na cidades e não aceitam ir para o interior. Porém, nossa política de saúde prevê a construção de mais hospitais”.  Glória aponta que uma das soluções para evitar a mortalidade materna seria  “transferir habilidades para as enfermeiras, capacitando-as para assistirem cesáreas, para atenderem aquela mulher que não consegue chegar a um grande centro, onde haja médicos obstetras.”

Parteiras e obstetras

Stélia Deodita informou que Moçambique conta com três universidades na formação dos médicos –  no Sul,  Norte e  Centro. “Muitos são formados mas o país não está em condições de absorver todos esses profissionais e grande parte está desempregada. Por exemplo, 120 mil profissionais concorrem a 100 vagas. E, ainda, temos problemas no acesso ao nível superior.”

Glória Macitela explicou que antigamente havia muitas parteiras em Moçambique mas, com o aparecimento da AIDS, muitas mulheres passaram a precisar de medicações e de serem transferidas para os hospitais. Caso deseje ser acompanhada por sua parteira, ela deverá assisti-la na unidade sanitária. Não se recomenda mais fazer o parto na comunidade”.

Acompanhante no trabalho de parto

As residentes tiraram dúvidas de como os profissionais lidam com o prontuário e se a mulher moçambicana tem direito a acompanhantes no trabalho de parto. Mariana Alexandre respondeu: “Nós não temos muito tempo para escrever detalhadamente no prontuário de 30 em 30 minutos, temos um livro com diários médicos onde se faz o registro dos partos. Quanto ao acompanhante, a diferença é que no Sofia entra o marido, lá, a escolha é mais por acompanhante do mesmo sexo”.

Stélia Deodita acrescentou: “a evidência científica já mostrou a importância do acompanhante. Nosso modelo prevê esta particularidade. Em nossa cultura, o parto sempre foi um evento feminino. Mas o homem já começou a fazer parte.  Estamos sensibilizadas e acreditamos que eles podem passar a participar do parto ao lado da mulher.”

As residentes se mostraram curiosas sobre como elas lidam com a dor do parto. “Não temos analgesia intraparto, apenas para cesáreas. As mulheres lidam com a dor. Deambulam pelo Hospital, vão tomar um chazinho e recebem apoio psicológico. Temos pouca água, por isso não usamos banheira e nem chuveiro”, explicou Stélia.

“Está melhorando”

Glória Macitela é positiva e acredita que “a tendência é melhorar cada vez mais e, por isso, estamos aqui”. No dia a dia, elas assumem a assistência. Quando ocorre alguma intercorrência com o bebê, chamam o pediatra, que não fica o tempo todo na maternidade, ou encaminham para outra unidade, pois nem todas contam com incubadora.

Em Moçambique, diferente do Brasil, os partos ocorrem também nos postos de saúde. A enfermeira está preparada para dar assistência à mãe e ao neonato. O país também forma enfermeiras pediatras, que contribuem com a assistência de emergências ao recém-nascido.

Mortalidade materna

O Ministério da Saúde de Moçambique não conta com indicadores de mortalidade materna atualizados. Sabe-se que a maior causa é a hemorragia pós-parto. Muitas mulheres acabam tendo seus filhos em casa, sem assistência. Se ocorre problemas também têm dificuldades com transporte. Até chegarem à unidade de saúde, podem vir a óbito.

O último dado, segundo Glória Macitela, é de 10 anos atrás quando era de 408 óbitos por 100.000 nascidos vivos. “Mas acho que reduziu bastante, a tendência é a melhoria. As enfermeiras estão se preparando para lidar com as complicações e recebem um pacote de capacitação de cuidados obstétricos, tipo o ‘Also’ (treinamento em urgência e emergência) de vocês. Esta estratégia ajudou muito, as profissionais ficaram mais empoderadas para atender a nível primário”, esclareceu. No Brasil,  dados de 2015 apontam que a mortalidade materna é de 60 por por 100.000 nascidos vivos.

A enfermeira elogiou as reuniões de acompanhantes e puérperas. “Vamos adotar. Normalmente, falamos com as mulheres sobre os cuidados com ela e com o recém-nascido, mas não falamos sobre suas percepções do parto”.

Mariana Alexandre ressaltou a união dos trabalhadores do Sofia, todos unidos por único fim. E garantiu que “o que der para fazer sem financiamento, vamos fazer. E levar conosco as boas experiências”.