Maternidades da Rede SUS participam de treinamento para o Parto Adequado

quarta-feira, 20 de setembro de 2017 as 13:48

Os relatos de partos de Carolina Neves e Iracema de Carvalho, no nascimento da Beatriz e a Maitê, e a exibição de um vídeo sobre os partos realizados no Hospital Sofia Feldman foi o ponto alto do “Hub Público’, uma Sessão de Aprendizagem Presencial (SAP) do ‘Programa Parto Adequado’, que aconteceu nos dias 13 e 14 de setembro, em Belo Horizonte. Reuniu profissionais e gestores de 30 maternidades públicas brasileiras que, durante os dois dias, participaram de palestras, dinâmicas e definiram prioridades para suas instituições. Aumentar os índices de partos normais, reduzir eventos adversos e  cesarianas são algumas das mudanças consideradas necessárias por gestores e profissionais.

“O  Programa Parto Adequado, desenvolvido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão do Ministério da Saúde, ‘Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e o Institute for Healthcare Improvement (IHI) tem o objetivo de identificar modelos inovadores e viáveis de atenção ao parto e nascimento, que valorizem o parto normal e reduzam o percentual de cesarianas desnecessária na saúde suplementar. Essa iniciativa visa ainda a oferecer às mulheres e aos bebês o cuidado certo, na hora certa, ao longo da gestação, durante todo o trabalho de parto e pós -parto, considerando a estrutura e o preparo da equipe multiprofissional, a medicina baseada em evidência e as condições socioculturais e afetivas da gestante e família.” [Fonte> ANS]

As maternidades estão fazendo uma pactuação de adesão ao Programa Parto Adequado, cujo objetivo é implementar melhorias e um conjunto de mudanças. Metas definidas: 40% de partos normais no sistema privado e 75% nos hospitais da Rede SUS. O Hospital Sofia Feldman é referência para as maternidades das regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste; denominado ‘Hub B’, já o Hospital Agamenon Magalhães, de Recife, presente no treinamento, é o ‘Hub A’, responsável pela sua região?????.

Com este treinamento, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deu início à segunda fase do Programa Parto Adequado. Participaram desta seção 3 representantes de cada maternidade. Vieram de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Rondônia, Bahia, Pará, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro. De Minas Gerais, participaram profissionais e gestores do Hospital Regional do Sul de Minas (Varginha), Hospital das Clínicas Samuel Libânio (Pouso Alegre) Hospital Queluz (Conselheiro Lafaiete) e o Hospital e ‘Maternidade Municipal de Uberlândia Dr. Odelmo Leão Carneiro.

Segundo Paola Andreoli, gerente de qualidade e segurança do paciente do Hospital Israelita Albert Einstein., “o Programa Parto Adequado envolve 150 hospitais públicos e privados. É um projeto colaborativo que usa uma metodologia do IHI [Institute for Healthcare Improvement]. Começou na rede suplementar e se expandiu para a área pública. Parto adequado é saúde e segurança para a mãe e o bebê. Não estimular o parto cesáreo a qualquer custo”.

“É bom para o paciente?”

Rita Sanchez, do Hospital Israelita Albert Einstein é a coordenadora do Programa Parto Adequado e declarou para os participantes que uma pergunta é essencial quanto aos procedimentos durante o trabalho de parto: “isto é bom para a paciente? Se é bom, faz. Este novo modelo se propõe a mudar o cuidado centrado no médico e no hospital para a mulher. Considerou muito proveitoso misturar maternidades públicas e privadas. “Este curso é para aprender e tirar as dúvidas. O objetivo é aumentar a confiança no Modelo.”

Vera Bonazzi, referência da Enfermagem do Hospital Sofia Feldman, vice-presidente da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras – ABENFO e da Comissão de Saúde da Mulher do Conselho Federal de Enfermagem – COFEN falou sobre as ações desenvolvidas pela instituição em prol das boas práticas no parto e nascimento, como o aprimoramento da enfermagem obstétrica e de equipes médicas para as boas práticas, por meio de imersão na assistência. Para Vera, “o pouco com muita vontade consegue realizar”. Enfatizou o que faz a diferença na assistência no Sofia: “a relação, como um relaciona com o outro, com os colegas e com as pessoas de nosso cuidado, além de uma gestão que está ao nosso lado”.

Fernanda Agra, do Hospital Agamenon Magalhães, de Recife, Hub A, descreveu o Termo de Compromisso a ser assinado pelas maternidades interessadas no Projeto Parto Adequado. “As maternidades devem descrever o problema: quantos partos realizam, o modelo de cuidado médico adotado, a ambientação da unidade, o que motivou a entrar para o Projeto e como ele se enquadra na estratégia da instituição. Descrever o cenário de parto: excesso de cesarianas, muitas admissões na Neonatologia, muitos eventos adversos, modelo de cuidado desatualizado? Devem traçar metas, por exemplo, queremos aumentar os partos normais, reduzir riscos para a gestante e a prematuridade iatrogênica”.

A Maternidade Nossa Sra. de Lourdes,de Goiânia é uma das que aderiram ao Parto Adequado e está começando a implantar o Programa. O obstetra João Manoel Marques Cristova, diretor da maternidade, disse que gostou  do nome ‘parto adequado’, essa nova nomenclatura favorece a adesão mais facilmente e  chamou a atenção até dos médicos. A instituição aderiu ao Programa e está começando a implantar o novo método. Parto normal é o melhor para a mulher”. O Hospital assiste a 200 partos por mês, com um índice variável de 40 a 50% de cesarianas.

“Estamos formando médicos cesaristas”

Lígia Cosentino Franca, da Faculdade Regional de Medicina – FAMERP e Hospital da Criança, de São José do Rio Preto, disse que a resistência dos médicos à adesão aos partos normais vem do receio de processos. “O problema é o medo das complicações. Costumam pensar que com mais partos normais, haveria mais processos.” Relatou que a instituição não tem quartos ppp [onde a mulher fica no mesmo local no pré-parto, parto e pós-parto e conta com ambientação favorável ao parto natural], mas estamos querendo reformar um dos quartos.” Manifestou uma preocupação, como é um hospital-escola com um alto índice de cesarianas estamos formando médicos cesaristas, aprendem pouco da via natural. Para mudar esta situação, vamos providenciar para não haver mais agendamento de cesáreas. Também sugeriu à Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO -  que dê apoio judicial aos médicos.”

As maternidades presentes listaram as barreiras para as mudanças de modelo na assistência e apontaram soluções, em painéis afixados nas paredes. Como barreiras, entre outras, apontaram a baixa adesão dos médicos, a pouca aplicabilidade das boas práticas, o elevado número de cesáreas, espaço físico restrito, ambiência inapropriada, uso rotineiro de ocitocina, de episiotomia e elevado índices de cesáreas e internação em UTI.

Soluções apresentadas: persistência, envolvimento dos gestores, capacitação das equipes, estímulo às boas práticas, inserção de enfermeiras obstetras, treinamento em serviço, educação permanente, interação com a atenção básica, curso de gestantes, inserção do acompanhante de parto, fortalecimento da consulta em amamentação, melhoria da ambiência, implantação de fluxos e protocolos e a escuta das mulheres e famílias. Apontaram, também, a barreira cultural, onde a mulher acha que a cesárea não dói e é melhor que o parto normal.

Indígenas desejam cesáreas

A enfermeira obstetra, Vânia Muniz da Silva, do Hospital Pedro Paulo Barcaui, do Pará, 100% SUS deu uma informação preocupante. O Hospital é referência para os índios Caiapó. Segundo ela,  as índias chegam à unidade mostrando com as mãos o corte na barriga e pedindo cesárea para evitar a dor do parto. “Isto me preocupa, a gente tem a concepção de que a mulher indígena desejaria partos naturais. O homem branco está influenciando a cultura do índio”. Informou que em 2016 foram realizados 505 partos normais e 854 cesáreas na instituição e que contam com total apoio da prefeitura do município para efetuarem as mudanças. Estão para inaugurar um Centro de Parto Normal.

“Temos as melhores expectativas para as mudanças, treinar equipes, capacitar todo o Hospital desde a portaria até os profissionais da assistência, todos temos que falar a mesma língua”, afirmou. Vânia é professora universitária e achou soluções criativas para implementar mudanças, como a criação de cursos de extensão para incluir os alunos na execução do projeto e, em via de mão dupla, inseriu o aconselhamento em amamentação na faculdade. Criou, também, a figura do “Guardião do Tesouro”, uma liderança que observa a assistência e aponta para a direção o que encontra de errado. “Minha galinha dos ovos de ouro é o parto natural”.

Diretrizes para o parto normal

João Batista de Castro Lima, diretor clínico do Hospital Sofia Feldman, esclareceu sobre as ‘Diretrizes Nacional de Assistência ao Parto Normal’, recomendações do Ministério da saúde definidas em maio de 2017 para as maternidades brasileiras. Objetivo: qualificar o modo de nascer no Brasil, reduzir intervenções, difundir as melhores práticas e promover mudanças na prática clínica.

As diretrizes estimulam, promovem, protegem e incentivam o parto normal, “muito mais seguro que a cesariana’, segundo o obstetra. Recomenda a inserção da enfermeira obstetra por apresentar vantagens com relação à redução de intervenções e aumentarem a satisfação das mulheres. As diretrizes apontam que a parturiente não deve ser deixada sozinha e recomenda a presença de uma doula, que comprovadamente traz benefícios clínicos para as mulheres. E mais: o contato pele a pele mãe/filho após o nascimento e a construção de suítes ppp.

“Vendemos a cesárea como um parto seguro”

Elzi Rodrigues, assessora técnica da coordenação geral da saúde das mulheres, Ministério da Saúde, descreveu a assistência obstétrica no Brasil: “muitas intervenções no parto vaginal e excessivo número de cesarianas e iatrogenias relacionadas às intervenções desnecessárias nos partos normais e nas cesáreas eletivas. Precisamos reconhecer para mudar. Os riscos não são apresentados às mulheres, vendemos a cesárea como um parto seguro, adequado, sem dor e sem consequências. Quando tem eventos adversos, dizem ainda bem que fez a cesárea.”

“O que está relacionado às altas taxas de cesáreas? O parto culturalmente está relacionado a um ato médico; não temos grande número de enfermeiras obstetras nos serviços assistindo partos”.  Ela fez uma linha do tempo nas propostas de mudança de modelo ao parto e nascimento pelo Ministério da Saúde. “Em 2011 foi criada a Rede Cegonha; em 2013, foram abertas residências em enfermagem obstétrica e promovido o Curso de Aprimoramento da Enfermagem Obstétrica; 2014, habilitação dos primeiros centros de parto normal; 2015, criação do Projeto Parto Adequado; 2016, definidas diretrizes clínicas para realização de cesáreas e em 2017, diretrizes para o parto normal.

Falou das mudanças efetuadas no Hospital Agamenon Magalhães. “Não existia gerenciamento de indicadores, os partos normais eram feitos no centro cirúrgico, as enfermeiras obstetras não assistiam partos e não ocorriam visitas clínicas para discussão de condutas. Objetivo primeiro: aumentar os partos vaginais de 40% para 60% e reduzir eventos adversos. Colocamos a enfermeira obstetra, o fisioterapeuta e o psicólogo para preparar a gestante no momento do parto. Transformamos duas salas em ppp, com bola, cama e cavalinho. Adaptamos os espaços e ambientes para reduzir ruídos e iluminação, acomodamos os acompanhantes [pai não é visita] e adotamos alguns protocolos, como de métodos não farmacológicos de alívio à dor, na realização de episiotomias e realizamos concurso para enfermeiras obstetras.” Resultado: ultrapassaram a meta de 60% de partos vaginais e a satisfação das usuárias passou para 83,70%. Apontou os desafios: engajamento dos médicos e da família, o empoderamento dos profissionais e a valorização dos benefícios do parto normal.

Para Vera Bonazzi,  o que temos de melhor no Sofia é “a vontade de cuidar da mulher. A equipe é nosso ouro, faz diferença no cuidado e nos resultados. Nosso fim é cuidar da usuária. Em torno dela, temos a equipe para atender as necessidades, a direção,  o controle social, todos juntos por uma gestão de qualidade. O parto é da mulher, estamos ali como observadores e atuando quando necessário. A equipe tem que se adaptar a essa mulher.”

Expectativas

“Espero melhorar a qualidade de atendimento, qualificar o serviço e aumentar o número de partos normais”. [Jucelma Reis, do Hospital das Clinicas de Pouso Alegre, Minas Gerais]

“Estamos prontos para captar tudo e levar para o Hospital melhores atendimentos e oferecer o parto adequado” [Silvani Borges, Maternidade Pedro Paulo Barcaui, Redenção, Pará]

“Vejo o Parto Adequado como a mudança de cultura da assistência. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. [Luzia Alves, enfermeira do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, Limoneiro, Pernambuco]

“A atenção básica tem deixado a desejar. O povo acostumou com a cesárea.” [Leandra Saldanha, Hospital Regional Emília Câmara,  Afogados da Ingazeira, Pernambuco]

“Nossos indicadores estão ruins, queremos sair daqui com novas expectativas e procurar colocar em prática”. [Graziele Pimental, Hospital Regional Adamastor Teixeira de Oliveira, Vilhena, Rondônia]

Nosso objetivo é a melhora nos índices de parto normal na região. [Leonardo Vieira Elias – obstetra, Maternidade Santa Izabel, Bauru, São Paulo)

Compartilhando experiências

Quase ao final do encontro, duas mulheres que tiveram seus filhos no Sofia relataram seus partos, ao lado da doula, Maria Mazarelo, e da psicóloga Júlia Amaral Horta, referência das doulas do Sofia e do município. “A doula não substitui o acompanhante e nem profissionais da equipe técnica. Transmite confiança, encorajamento e dá suporte físico e emocional à mulher. Está ao lado, mas o parto é da mulher”, enfatizou a psicóloga. Alertou:  falta  regulamentação para atuação das doulas nas instituições brasileiras.

Maria Mazarelo, 81 anos, 11 filhos e há 23 anos atuando como doula no Sofia, emocionou os participantes. Ela contou que sua história começou como parteira no interior. “O Sofia me acolheu de braços abertos como voluntária. A doula compartilha a dor da mulher e ama a todas em igual condição. Dentro da minha insignificância, sou muito feliz.”

O Sofia é uma mãe

Os olhares se voltaram então para duas mulheres, sentadas com seus filhos no colo: Iracema de Carvalho e Carolina Neves, que relataram seus partos no Hospital Sofia Feldman. Iracema estava acompanhada pela mãe Janete e a filha Maitê, de 3 meses. Ela passou por uma cesariana bem indicada na instituição. “Quando cheguei ao Hospital não tinha noção do quão grandioso é o Sofia.” Chegou com pré-eclâmpsia e foi acolhida na Casa da Gestante, onde ficou por um mês. Maitê foi para a UTI neonatal, depois para a UCI e, em seguida, para a Casa do Bebê, até ganhar peso. “Eles me perguntavam, você tem plano de saúde, por que não vai para o Vila da Serra, o Mater Dei? Não poderia ter ido para lugar melhor. Talvez minha filha não estivesse aqui caso tivesse ido para outra maternidade. O Sofia é uma mãe.  Não tem como agradecer tanto carinho, tanto amor. Eles trabalham por paixão”.

“Eu me senti cidadã”

Carolina Neves carregava no colo a Beatriz, com 27 dias de vida, que nasceu de parto normal. “Minha história começa um pouco antes, era assessora de um deputado [Adelmo Leão] e já militava pela humanização do parto. Quando engravidei, não tive dúvidas, vou para o Sofia. Perdi minha mãe logo depois de saber a notícia. O Sofia foi a minha mãe, quando ia nas práticas integrativas, quando me orientaram sobre amamentação, quando tive medo do que fazer na hora do parto,de como cuidar do bebê. Eu me senti uma deusa, muito poderosa, graças ao Sofia! Me senti cuidada e privilegiada por receber esta assistência. Me senti cidadã de fato. Escolhi a posição, ela veio direito para o meu colo. Sou muito grata ao Sofia. Temos que fortalecê-lo neste momento em que o SUS sofre um ataque nacional. O Sofia é o SUS que dá certo, que respeita a dignidade humana, das mães e das famílias”.

Estão no Parto Adequado

Hospitais e Maternidades participantes: Hospital Agamenon Magalhães (Pe), Centro Integrado de Saúde Amaury Medeiros (Pe), Hospital Nelson Inácio dos Santos (RN), Hospital Municipal Dr. Amadeu Sá (CE), Maternidade Almeida Castro (RN), Adamastor Teixeira de Oliveira (RO), Hospital Regional Emília Câmara (PE), Hospital do Oeste (BA), Hospital Santa Maria de Ananindeua (PA), Hospiral Regional de Limoeiro Fernandes Sales (CE), Hospital Regional de Itapetininga São Camilo (SP), Hospital e Maternidade Municipal de Uberlândia Dr. Odelmo Leão Carneiro (MG), Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros (SP), Fundação Regional de Medicina de São José do Rio Preto (SP), Hospital Estadual Dr. Odilo Antunes de Siqueira de Presidente Prudente (SP), Hospital Regional do Sul de Minas (MG), Hospital das Clínicas Samuel Libânio (MG), Maternidade Santa Isabel (SP), Hospital Universitário Cassiano Antônio de Morais (ES), Maternidade Nossa Senhora de Lourdes (GO), Hospital Queluz (MG), APMIR – Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (RJ), Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch (SP) e Hospital Amparo Maternal (SP).