Africanas se despedem do Sofia

sexta-feira, 24 de novembro de 2017 as 8:15

As 16 profissionais de saúde de Moçambique e Angola que ficaram no Hospital Sofia Feldman de 6 a 24 de novembro participando do 7º Curso Internacional de Atenção Humanizada à Mulher e ao Recém-Nascido, realizado em parceria com a Agência de Cooperação Internacional do Japão – JICA e a Agência de Cooperação do Brasil – ABC/MRE, pelo Programa de Treinamento para Terceiros Países – TCTP, apontaram diferenças entre a assistência ao parto e nascimento em seus países e a praticada no Hospital. Elas fizeram um Plano de Trabalho, onde opinaram sobre as mudanças possíveis de serem implementadas em seus países.

Durante três semanas, passaram por oficinas, participaram de palestras e atuaram na prática. Foram informadas sobre o SUS e as políticas públicas relacionadas à saúde da mulher e recém-nascido, sobre as evidências científicas na assistência, o Método Canguru, a Casa do Bebê, a Casa da Gestante, gestão hospitalar, os métodos não farmacológicos de alívio à dor no parto, aleitamento materno, as terapias integrativas e complementares, urgências e emergências neonatal e materna, entre outros. Mas elas não ficaram somente nas práticas, também se divertiram, participaram de atividades na Academia Sofia em Forma, visitaram a Mina de Ouro Jejê, localizada em Ouro Preto e caminharam pelas suas ruas históricas.

Acolhimento para o povo brasileiro

Amélia Cristovão, de Moçambique, conheceu o Sofia por meio de um vídeo apresentado pela enfermeira obstetra Ana Paula Valerine, em visita anterior da equipe do Hospital ao seu país. Ela é enfermeira responsável pelo Pré-natal no Centro de Saúde 5 de setembro, que assiste a cerca de 800 partos por mês. Informou que cesáreas são realizadas só em caso de alto risco e somente na cirurgia é usada a anestesia. A episiotomia [corte vaginal] não é mais realizada.

Observou que a assistência no Sofia é bem diferente da praticada em seu hospital. “Aqui existe os partos na banheira, no banquinho, no chuveiro. Lá, só assistimos partos na cama ou em um colchão no chão; a mulher pode escolher a posição e ficar de cócoras, se desejar.

O que mais a impactou no Sofia foi “a humanização do parto, a sua realização em lugares diferentes e a entrada do parceiro como acompanhante, lá só entra mulher.” Ao voltar, pretende implementar o contato pele a pele entre mãe e bebê logo após o nascimento e a inclusão do parceiro no trabalho de parto.

Apontou como maior dificuldade na assistência no seu Hospital o material de uso, por exemplo, as luvas. Declarou: “o Sofia é um hospital de acolhimento para todo o povo brasileiro.

Atendimento espetacular

Margareth Joseph trabalha no Hospital Regional Mona, Moçambique, onde são realizados cerca de 130 partos por mês. “Fazemos parto humanizado, temos acompanhantes, mas não entra homem.” Na sua opinião, “parto humanizado é o parto que oferece atendimento de qualidade e deixa a mulher escolher a posição. Lá, ela pode ficar de cócoras na cama,  a episiotomia [corte vaginal] já não fazemos, está ultrapassado, mudou depois de treinamentos anteriores”. O Hospital não possui equipamentos de apoio ao parto normal, como o banquinho, a banheira, o chuveiro disponível e a bola.

Depois de visitar os espaços de cuidado no Sofia e participar de ações cotidianas elogiou as reuniões que ocorrem depois do parto com puérperas e acompanhantes e as terapias integrativas e complementares, que oferecem escalda-pés, Auriculoterapia, Ventosa, Acupuntura, entre outros, para gestantes e trabalhadores.

No Sofia, ela viu a atuação das doulas comunitárias, mulheres que dão apoio à parturiente e contou que, lá, as parteiras tradicionais costumam levar as mulheres até o hospital, mas não é permitida a entrada delas. Vai embora encantada com o atendimento: “o Sofia é espetacular, porque atende muito sem perder a qualidade do atendimento.”

Um bom hospital

Dércia Izabel Alberto é a caçula do grupo, com 27 anos, e enfermeira chefe do Hospital Rural de Chicuque, Moçambique, onde são realizados 20 partos por dia. Achou o Sofia “um bom hospital, pois implementa a humanização. Apendi tudo o que fazem aqui. Lá, temos a Casa de Espera [semelhante à Casa da Gestante] e acompanhante só do sexo feminino. Vamos tentar incluir o acompanhante masculino. É difícil incluir o homem pela cultura, a mulher não pode se mostrar para outra pessoa, que não o marido.”

Envolvimento da comunidade

Elsa Inelda Oliveira explica que é Ponto Focal a Formação Contínua, do Hospital Distrital de Massinga, também de Moçambique, onde são realizados 180 partos por mês. Quando voltar, vai apresentar ao gestor a assistência do Sofia e transmitir para os colegas os conhecimentos.

Descreveu a assistência em seu hospital: “é diferente, temos alguns serviços humanizados. A mulher tem direito a um acompanhante do sexo feminino e escolhe a posição. Não temos banheira. Fazemos episiotomia [corte vaginal] só quando bem indicado. Kristeller [manobra externa na barriga da mulher para ajudar o bebê a descer] já não fazemos. É possível implementar a reunião dos acompanhantes, não requer custos. Não temos possiblidade de partos na banheira, nosso espaço é muito pequeno e só temos água fria nos chuveiros”.

Como as outras colegas, o que mais a impactou no Sofia foi a presença do homem no trabalho de parto e nascimento. “Lá, o homem acompanha o pré-natal, mas na consulta de planejamento familiar, o marido não entra.” Percebeu que as mudanças devem envolver a comunidade, como ocorre no Sofia.

Símbolo de humanização

Nsungani Michelina, de Angola, trabalha na Maternidade Lucrécia Pains, que faz 85 partos por dia. O índice de cesáreas chega a 20% e inclui cesáreas eletivas e de urgência. Ela estudou em Cuba e, almoçando no Sofia, se lembrou da comida de lá ao comer o Feijão Tropeiro no Restaurante Serra da Piedade [do Serviço de Nutrição e Dietética do Sofia, que atende usuários e trabalhadores].

“Estamos lutando para implantar a assistência humanizada em sua totalidade no nosso Hospital.” Definiu o que é uma assistência humanizada. “É atender de coração, pegar a dor da pessoa e colocar em nós, como se estivéssemos neste lugar e aconselhar a mulher, entender a sua dor e respeitar a sua vontade.

Disse que vai levar do Sofia “todas as coisas boas que aprendi, porque aqui é diferente: no parto, a mulher  pode escolher a posição e o lugar onde quer parir, pode ser no chuveiro, na banheira ou na cama. O alojamento conjunto daqui também é diferente. Aqui, o bebê logo que nasce fica no peito da mãe tempo suficiente. Lá, deixamos 3 minutos apenas e levamos para o berçário. Aqui, o bebê não vai para o berçário. O Sofia é símbolo de humanização, o berço da humanização. Aqui,  todo mundo é igual, como a Bíblia diz ‘Deus nos vê igual’. Os médicos, as enfermeiras e os usuários comem da mesma comida, uma comida balanceada, boa para a saúde e todo mundo tem direito à alimentação. Cheguei à conclusão que a mulher angolana precisa de um atendimento como esse.”

Apontou outro diferencial do Sofia: “aqui o trabalhador é dignificado, tem academia, creche e terapias. Lá, damos saúde mas não recebemos.”

Tratamento igual para todos

Marisa Fancony trabalha na Maternidade Augusto Ngangula, em Angola, onde são realizados 30 partos por mês. É a primeira vez que profissionais da instituição participam do curso realizado anualmente no Sofia. “O Sofia é um Hospital que tem mais entrega e acolhimento com relação ao usuário. Minha maternidade tem uma única posição para o parto, deitada, a mulher não pode circular e não pode ficar de cócoras. Ainda fazemos episiotomia [corte vaginal]. Não fazemos fórceps e ainda fazemos kristeller [manobra para empurrar o bebê].

“Pretendo incentivar a mãe no aleitamento materno e no contato pele a pele. Tratar todos de forma igual, todos tem o mesmo direito. Não discriminar como acontece às vezes lá com as mulheres da zona rural. Aqui não há diferenças para nada, nem no contato com os membros da direção. O atendimento é uma maravilha! Há um bom acolhimento aos familiares e ao paciente.”

Acolhe a vida

Inês Manuel Dimoneguene relatou que no Hospital Municipal de Cazenga, Angola, se faz poucas cesarianas porque “faltam recursos humanos, temos poucos médicos, 2 obstetras que não fazem turnos 24h, só nós mesmo.  As madrinhas [doulas] só atuam na Maternidade Central. Aqui no Sofia, a paciente se sente cuidada. Vou levar os conhecimentos, pois Deus me escolheu para estar aqui e devo passar para os outros e implementar as mudanças. Chegando, vou apresentar o Plano de Trabalho para chefes e diretores clínicos para avaliar se podem colocar na prática.”

Ela também enfatizou que há um dificultador quanto à inclusão do homem no trabalho de parto. “A cultura do país influencia. O corpo só pode ser visto pelo marido, cunhadas não podem, nem sogra. Na nossa cultura, eu ver o corpo, o pudor dela, é esquisito. Podem levar uma amiga ou o marido, da família de maneira alguma”.

De tudo o que vivenciou o que mais a impactou foi “ver paciente, acompanhantes, médicos e enfermeiras comendo juntos no refeitório e o pai acompanhando o parto. Também  o Núcleo de Terapias e Complementares, que atende trabalhadores, gestantes e parturientes. Quero implementar as terapias lá, me encantou muito.”

Ela é só elogios para a assistência no Sofia. “É um hospital ótimo, gostei do ambiente acolhedor e da humanização para todos, muito feliz de ver acontecer. A pessoa sente o amor de Jesus Cristo, não há distinção de raça, é muito bonito. No momento do parto, acolhe a vida. Deus tem de abençoar sempre este hospital. Maravilhoso o acolhimento da família. As mulheres  sentem-se como se estivessem em casa. A assistência é muito boa, os processos são eficientes, cada pessoa trabalha no seu devido lugar e  gostei muito do trabalho em grupo.”