O Bairro Tupi foi planejado

terça-feira, 28 de novembro de 2017 as 8:19

Você sabia que o Bairro Tupi, em Belo Horizonte, foi planejado? E que quem o planejou também escolheu o nome de artistas para as ruas? O idealizador e grande sonhador se chamava Isaías Golgher. Foi ele quem loteou uma fazenda, doou terrenos para as construções das escolas municipais Francisco Campos e Sebastiana Novais, o campo de futebol Tupinense [Campo Isaías Golgher] e desejou um hospital [Sofia Feldman] e lutou para implantar as linhas de ônibus. Tudo começou na década de 1940. A história foi recuperada pela diretoria da Escola Francisco Campos, 41 anos de existência, que inaugurou na semana passada o Memorial Marx Golgher [nome do filho de Isaías Golgher, responsável por assinar os termos de doação].  Isaías queria colocar o nome de Escola Municipal Anne Frank [uma judia perseguida pelo Nazismo]. Era tempo da ditadura de Getúlio Vargas, o nome não foi permitido e a escola recebeu o nome de ‘Francisco Campos’, ministro do governo da época.

A homenagem reuniu representantes das Escola Municipal Sebastiana Novais,  da Secretaria Municipal de Educação, do Hospital Sofia Feldman, da Escola Municipal Anne Frank e contou com apresentação musical dos alunos, que homenagearam a família Golgher com músicas israelitas. Presente, também, o Sr. Jacques Levy, Vice-presidente da Federação Israelita do Estado de Minas Gerais, grande incentivador da homenagem. A Sala de Vídeos, onde está localizado o Memorial, também leva o nome de Marx Golgher.

Guardião da história

A atual diretoria, coordenada pela professora Magda Gonçalves, tem se empenhado em restaurar e manter a história. Foi criado um blog -  A História do bairro Tupi -  e está nos planos cercar a escola de árvores, criando a Calçada da Paz Isaías Golgher. O mais entusiasmado por essa ideia é o professor de Geografia, Michael Korsch, há 21 anos na escola, e que foi declarado o “guardião da história”. Ele promete permanecer como voluntário, depois de aposentado.

“Quando cheguei ao Tupi, parece que o lugar me chamou. Vi os nomes dos artistas plásticos, escritores, atores e me perguntei, quem teve essa ideia? O Tupi é um bairro muito especial, foi planejado. Isaías planejou ter um centro de saúde, um campo de futebol e incentivou a vinda de linhas de ônibus. Ele veio do Império russo, minha família também. Apaixonei pela escola, vou cuidar da parte paisagística, resgatar a história e preservá-la.”

Vinte e um ano depois da fundação da Escola Municipal Francisco Campos, Marx Golgher viu a prefeitura dar o nome da sua preferência para a Escola Anne Frank, no bairro Confisco. Hoje, ela faz parte do Rede Anne Frank Internacional. “Trabalhamos com os estudantes a cultura da paz, da tolerância e contra o racismo”, explicou a diretora Sandra Mara, responsável por contar toda a história para a diretora do Francisco Campos, Magda Gonçalves.

Uma visão social

Isaías Golgher era historiador e ensaísta, autor dos livros ‘Marx – mitos do Século XX’, ‘Guerra dos Emboabas’ e ‘Leninismo’. Era refugiado político, saiu perseguido da Rússia [na época da Revolução Russa] e foi para a Alemanha [de onde também teve de fugir do Nazismo] e veio para o Brasil, especificamente, para Belo Horizonte. Aqui, ganhou dinheiro com a criação de um álbum de figurinhas de futebol e comprou uma fazenda na região. Era casado com Suzana, filha de Sofia Feldman, que deu nome ao Hospital.

Sr. Jacques contou como era Isaías Golgher: “ele sempre foi agitado, sempre pensando em realizar. Chegou ao Brasil sem nada. Ganhou muito dinheiro e comprou uma fazenda na região do Tupi, onde ainda não havia infraestrutura. Teve a ideia de criar um bairro, vendeu os lotes. Sempre teve esse princípio social. Pensou, tem de ter hospital, um posto de saúde, um campo de futebol e uma escola. Esta era para ser chamada de Anne Frank. Acabou sendo nomeada de Francisco Campos, nome do ministro da justiça de Getúlio Vargas. Acho que esta homenagem é o reconhecimento de um trabalho. Todos que fazem algo para melhoria da comunidade seja lá onde for, é digno de reconhecimento. A família Golgher tinha uma visão social; Isaías era simpatizante do comunismo, posteriormente, ele rompe ao saber que Stalin estava matando judeus. Sempre teve uma visão ampla. Trazer algo para a sociedade.”

A diretora Magda Gonçalves está quase saindo da escola, se aposenta no próximo mês, e se mostra muito feliz ao deixar a história resgatada para o futuro.  Muito querida, ela anda pelos corredores abraçando os alunos. “É meu dever dar visibilidade a esta história”. Os livros e peças judaicas que compõem o Memorial Marx Golgher foram doados pela Federação Israelita do Estado de Minas Gerais.

Fez a diferença

Lourdes Bretas, da Secretaria Municipal de Educação, declarou: “Num ato de desapego, Isaías doou o terreno e não imaginava que iria acontecer tanta coisa boa. Vocês, alunos, podem doar e fazer a diferença. A história determina a vida das pessoas. Temos que mostrar este ato para toda a rede municipal.” Do lado da escola, há um Centro de Saúde, localizado no terreno doado pelos Golgher. Seu gerente, Avilmar Carvalho Costa, ressaltou: “num país sem ética, desmoralizado pelo governantes lá em cima, corruptos, é importante levar estes valores para a vida e esta história para frente.”

“Quantas vidas ele transformou com suas ações, causou impactos na vida de todos nós. Há ações para o bem ou para o mal. A dele foi para o bem e trouxe muita alegria para nós, comentou Gleice Aparecida Silva, da Escola Municipal Sebastiana Novais.

“É muito merecida esta homenagem a pessoas que pensaram no bem comum. Sem educação não se faz transformação social. O bairro foi planejado e se pensou em empreendimentos importantes como saúde, educação e entretenimento [futebol]. O crescimento individual está nos estudos”, pontuou Sr. Jacques Levy, da Federação Israelita.