Quem somos no Sistema Único de Saúde?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 as 12:35

Aconteceu, no dia 15 de dezembro, o II Seminário dos Programas de Residência do Hospital Sofia Feldman. “Quem somos no Sistema Único de Saúde?” foi o tema central do evento, marcado por questões que permeiam o subfinanciamento do SUS e a qualidade da formação dos profissionais na área da saúde.

A mesa de abertura foi composta pelo presidente da Fundação de Assistência Integral à Saúde – FAIS, José Moreira Sobrinho; pela representante das Políticas Institucionais, Tatiana Coelho Lopes; pela  coordenadora do Programa de Residência em Enfermagem Obstétrica, Danúbia Jardim, e por André Lanza, representante do grupo de residentes da instituição.

Sr. José Moreira ressaltou a todas e todos que “são nesses momentos que surgem novas ideias, novos caminhos”. Relembrou a época dos chamados indigentes da saúde, pessoas que não tinham a carteira de trabalho assinada, não existia o SUS, não sendo garantido o acesso aos serviços de saúde. “Eu era policial, atendendo à chamados, rodava com a pessoa de casa de saúde em casa de saúde e ninguém queria atender, aquela pessoa ficava ali, na porta da instituição, sem saber se seria atendido ou não”.

O Hospital construído pela Sociedade São Vicente de Paulo, atendia àquele que não pudesse pagar. Não existia o SUS. “Quando veio a constituição de 1988 é que foi criada a previdência e também o SUS, foi um alento para muita gente. A saúde passou a ser direito de todos e dever do estado”, afirmou Moreira. Para ele, o Sistema Único de Saúde é um amparo, a direção certa.  enfatizou: “a riqueza de uma nação tem que pertencer à todos. Vivemos ameaças ao SUS e hoje há o risco de perdermos estas conquistas que tivemos até aqui”.

Integrante da Linha de Políticas Institucionais, Tatiana Lopes, ao dar as boas-vindas aos participantes, falou sobre a lógica da assistência vigente no Sofia Feldman, que, segundo ela, é diferente de outras instituições, por trazer uma ideia de formação muito forte. “Em uma roda de conversa com os gestores ficou claro que para continuar, é preciso formar os profissionais que queremos para o SUS e para outras instituições”, declarou.

Para Tatiana, este é um lugar de muitos desafios, mas também de muita potência, de mudanças e de garantia de direitos. Ela agradeceu pela presença de todos e disse que as portas estão sempre abertas: “a casa está aberta para quem não conhece e para quem está aqui. É vaga sempre pro usuário e para quem quer colaborar conosco”.

Médico residente da obstetrícia, André Lanza representou a todas e todos os residentes da instituição. Contou sobre a criação da Associação de Residentes Adelir Carmem, nome dado em homenagem à mulher, do Rio Grande do Sul, que teve uma cesariana feita a força, em 2014. “Ela representa muito a causa dos residentes. Estamos aqui por acreditar no ideal da instituição e ver o que o Sofia Feldman representa na formação de um novo profissional da saúde e de um novo modelo de assistência”, explicou.

Lanza contou aos participantes sobre o refeitório da instituição, que para ele, representa muito do que é o Sofia. “Todos almoçam juntos. Trabalhadores, usuários e comunidade, tendo como pano de fundo uma periferia”.

Em nome dos residentes André finalizou afirmando a crença na luta da instituição e no SUS, o compromisso de provocar mudanças na assistência e nos gestores.  “Apontamos as falhas para que melhore. Queremos crescer junto dessa instituição. Queremos defender o modelo e somar para que se tenha mais Sofias espalhados pelo Brasil. Que seja integral de fato, equânime de fato”.

A coordenadora do Programa de Residência em Enfermagem Obstétrica, Danúbia Jardim, explicou que são 4 programas de residência no Sofia Feldman, 120 residentes e o desafio da multidisciplinaridade. “É cada um em seu espaço, mas todos congregando para a formação de profissionais para o SUS”.

Danúbia expôs as incertezas quanto ao financiamento dos programas de residência no país: “Em janeiro não sabíamos se as bolsas seriam mantidas. Gratamente tivemos a notícia de que permanecerá”.

Reflexões sobre o SUS

No período da manhã os temas discutidos foram “A formação de profissionais da saúde: compromisso com o SUS” e “Residência em Saúde: “padrão ouro” de formação?”

Médico Sanitarista e Consultor do Ministério da Saúde, Serafim Filho pontuou que a saúde e o SUS são construções políticas e como um sistema precisam ser compreendidos em suas oscilações. “Existe SUS porque houve conjunto de forças, incluindo a população e a ciência”.

Serafim explicou a ideia de Rede, que para ele, vai além da expansão de serviços e tecnologias de regulação: “Rede é uma palavrinha que se perdeu no desgaste do termo. É articulação de serviços, mas também está ligada à produção de tecnologias relacionais”.

O médico sanitarista falou sobre os objetos formativos e que um deles deve ser as relações entre saberes e poderes. “Gosto da ideia de discutir casos que vão além da clínica, como o da Adelir Carmem, citado aqui”.  Afirmou que o SUS é rico por ser paradoxo e contraditório, como é a vida; “nos conceitos de dureza que emergem os contextos de resistência”, declarou.

Mariana do Carmo, psicóloga , em espaço aberto para debate pontuou que “há uma falha desde a graduação, não somos convidados a pensar as políticas públicas do país”.

O especialista em Saúde Pública Érico Colen falou sobre o subfinanciamento do setor saúde e suas repercussões nas instituições de ensino.

Erico apontou que ainda temos um modelo muito centrado no cuidado hospitalar, com muitos procedimentos e que seria necessário um aporte financeiro, um investimento na Saúde Básica. “Só que ao invés disso, desde o impeachment a situação se agravou bastante”, afirmou. Ele explicou que a demanda é cada vez maior e a oferta, cada vez menor.

De acordo com Érico a tendência é de que o financiamento na saúde até 2028 caia 11%, sendo assim, “como ficarão as bolsas para residência?”, questionou. Para ele o grande desafio será estruturar os programas e residência neste cenário “totalmente desfavorável”.

Concluiu afirmando que, para ele, “crise é quando todos perdem. Se tem um setor ganhando em detrimento de outro, então algo está errado”.

Os programas de residência e seus desafios

O residente de enfermagem em atenção básica/saúde da família Tiago Ramos deu um panorama das residências em saúde no Brasil e pontuou os principais desafios.

Tiago explicou que o termo residência vem da residência médica, que tinha por requisito a moradia no hospital, ficando à disposição da instituição em tempo integral. Questionou o que chamou de “herança da residência médica”, as 5.760 horas a serem cumpridas nos programas de residência hoje. “Será mesmo necessário?”.  Para ele, esta intensificação do trabalho do enfermeiro segue na contramão da luta da classe pelas 30 horas semanais.

Tiago enfatizou a questão do adoecimento de profissionais e abandono da residência, ligados ao assédio moral por parte dos preceptores. “Precisa ensinar a ser preceptor. Ter uma política de educação permanente para preceptores e tutores, remuneração para estes profissionais”.

Aplaudido de pé pelos participantes, ele finalizou a palestra com a frase de Nise Silveira: “É necessário se espantar, se indignar, contagiar, só assim é possível mudar a realidade”.

Doutora em Enfermagem e coordenadora da Linha de Ensino e Pesquisa do Hospital Sofia Feldman, Lélia Madeira, falou sobre articulação, ensino e serviço como sustentação da formação de residentes.

Lélia começou a palestra com a música “A caneta e a enxada”.  Ressaltou a estrofe “estuda meu filho, porque a caneta é mais leve que a enxada”, um ditado muito ouvido por ela. Questionou os participantes: “qual é a realidade da formação em serviços de saúde hoje no Brasil?”. Para Lélia há uma contradição dialética, já que a teoria não sobrevive sem a prática, nem a prática sem a teoria.

“Ter mármore na porta do hospital, granito e uma enfermeira de salto alto não é qualidade, estes são equívocos que o capitalismo trouxe”, ela afirmou.

Os desafios foram apontados e colocados para debate, como a mudança urgente do modelo assistencial, de gestão e nos processos formativos no Brasil.

No período da tarde foram discutidos os avanços e desafios dos Programas de Residência em Saúde: a experiência na saúde mental, atenção primária e materno infantil. Trabalhos científicos foram expostos e apresentados aos participantes.