Sofia encerra o IX Planejamento Estratégico

segunda-feira, 16 de abril de 2018 as 13:33

O IX Planejamento Estratégico do Hospital Sofia Feldman, que reuniu aproximadamente 100 pessoas entre trabalhadores, usuários, gestores, representantes da comunidade e do movimento de mulheres em defesa da instituição na Escola de Saúde Pública – ESP, de 12 a 14 de abril, terminou no sábado, quando eles se reuniram em grupos de trabalho. Sexta feira, na parte da manhã, foram tratados o financiamento e gestão do SUS no contexto atual e a qualidade da assistência e o desempenho do Hospital na Rede SUS. Na parte da tarde,  o desafio da cogestão na instituição e o fortalecimento e ampliação da participação social.

Participaram da mesa de ‘Financiamento’, Bruno Abreu Gomes, presidente da mesa diretora do Conselho Municipal de Saúde, Kátia Rocha, presidente da Federassantas – Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos de Minas Gerais, Ederson da Silva, vice-presidente da mesa diretora do Conselho Estadual de Saúde, Ramon Duarte, diretor financeiro do Sofia, João Batista da Silva, auditor do Ministério da Saúde e Paola Soares, do Cosems MG (Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de MG) e Adelgiso Pereira Vidal Filho, Superintendente da Federassantas.

Novo marco regulatório

A advogada, Kátia Rocha, da Federassantas,  defende o rompimento de paradigmas: “não dá mais para trabalhar no faz de conta. Nós somos a essência da sociedade, somos a diretriz constitucional de participação da sociedade no SUS. Defendo um novo marco regulatório, um novo modelo legislativo previsto para as filantrópicas, nós que respondemos por boa parte da assistência materno infantil de alto risco, merecemos um tratamento diferenciado”. Aconselhou: “Não cedam, este é um conflito de interesses que temos que enfrentar. Alinhar tanto o poder público, a instituição e a sociedade e entender o valor da nossa instituição, o que representa e os custos deste serviço”.

Quem vai pagar a conta?

O superintendente da Federassantas, Adelgiso Vidal Filho, destacou: “Este é um momento em que atores importantes se reúnem para discutir tema de relevância, que é o financiamento, a PPI (Programação Pactuada e Integrada), pactuada entre os municípios e contratada junto ao Sofia. O Hospital atende indiscriminadamente o que esta contratado pelo município de Belo Horizonte. Produz mais do que deve. Na apuração do complexo materno infantil em Minas Gerais, verificamos que não há extrapolamento. Pergunto, o que foi pactuado entre BH e municípios é suficiente para pagar toda a conta? O que há é a ausência do equilíbrio dos valores repassados ao Sofia e índices de inflação sem a devida correção. Necessário é discutirmos, qual o custo real do Sofia para prestar os serviços contratados? Identificado o custo, quem vai pagar esta conta? Temos de promover discussões entre os entes envolvidos e definir como poderão participar do financiamento”, concluiu.

Vitórias parciais

O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Bruno Abreu Gomes, fez uma análise dos últimos movimentos em defesa do Sofia: “Tivemos três grandes batalhas, em março e outubro de 2017, conseguimos uma vitória parcial com o adiantamento de recursos pela PBH e, recentemente, a terceira e grande batalha contra a Intervenção municipal. De certo modo, tivemos uma vitória ao reafirmar a importância do modelo humanizado praticado pelo Sofia”. Reconhece que “o principal problema é a falta de diálogo”. Enfatizou: “o SUS é uma grande conquista do povo brasileiro, mas está em risco. ”

Lamentou fatos acontecidos na história recente do país, como o congelamento de recursos para a saúde por vinte anos e o engavetamento da Campanha Saúde + 10, que pedia que 10% do PIB fosse aplicado na área. Segundo ele, o Brasil é o que menos investe em saúde no mundo. Identifica como influência da piora na aplicação da saúde em Belo Horizonte, “o Hospital Célio de Castro que em seis anos consumiu R$ 225 milhões de reais dos cofres públicos. Eles optaram por fazer um hospital quando, com o mesmo recurso, poderiam fazer 70 centros de saúde”.

Ederson Alves da Silva, do Conselho Estadual de Saúde, também lamentou a situação do Sofia. “O momento é do diálogo conjunto entre o estado, o município e a União para definir responsabilidades. Momento de resistência e luta em defesa da saúde pública brasileira”.

Uma luta de todos

A representante do Cosems, Paola Soares, enfatizou que “a luta para se conseguir mais recursos para a área da saúde só terá chance de ser vitoriosa quando fizer parte de uma luta de cidadania, onde todos os brasileiros estiverem reunidos: governo, trabalhadores da saúde e usuários dos serviços. Precisamos de recursos dos três entes federados. O nome do Sofia é muito forte, é o nome do cuidado, tem um papel específico na rede de atenção”.

Resistir nem sempre é guerra

O auditor do Ministério da Saúde, João Batista da Silva, sugeriu planejar a curto, médio e longo prazo. “Estamos falando do terceiro setor, que nem é público, nem privado. Se sou 100% SUS e ele não me dá sustentação, tenho que pensar em outros caminhos. Fazer um relatório gerencial mostrando o que foi feito, o que não foi feito, por que não foi feito ou o que será feito no futuro.” Afirmou: resistir nem sempre é guerra. ”

Financiamento

Dra.Lenir Santos, doutora em Saúde Pública pela UNICAMP, abordou o tema “Gestão e financiamento do SUS no contexto atual”. Segundo ela, há alguns metas nacionais definidas: atenção básica resolutiva em 85% de suas demandas, revisão das 438 regiões de saúde e sua reconfiguração; organização das redes de atenção à saúde em suas principais necessidades, identificação dos vazios assistenciais e as especificidades regionais.

Segundo Lenir, desde 1989 houve mais fracassos que sucesso no financiamento do SUS, que culminou com o congelamento dos gastos em 2017. Listou os desafios no financiamento e apontou pontos graves como o desperdício, a corrupção e a falta de planejamento, entre outros.

Na busca de melhorias

João Batista Lima, diretor clínico do Hospital Sofia Feldman, falou sobre “A Qualidade da assistência e o desempenho do Hospital Sofia Feldman e abordou o tema ‘Modelo de melhoria, três questões fundamentais’. Perguntou: “O que estamos tentando realizar? Como saberemos que uma mudança é uma melhoria? Como realizar melhorias?” Afirmou que toda melhoria requer mudança, mas nem todas as mudanças resultam em melhoria.

A prefeitura de Belo Horizonte foi representada pela presidente do Grupo Inovação em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde, Jomara Alves da Silva. Ela também participou da mesa “A Qualidade da Assistência e o desempenho do Hospital na Rede SUS”. Ela informou: “Belo Horizonte tem 2,5 milhões de habitantes, 48%  têm plano de saúde suplementar. Conta com mais de 300 unidades de saúde: 29 hospitais, 152 centros de saúde e UPAs”. Para ela, os grandes desafios são a inflação e o financiamento, além dos desperdícios, incluindo aí pedidos de exames desnecessários.  “Há uma crescente demanda da sociedade por serviços de qualidade, temos um nível de atenção à saúde funcionando de maneira fragmentada, um aumento dos custos e o congelamento de recursos de fontes externas”.

Falou sobre o DRG – ‘Metodologia de agrupamento de pacientes com a mesma condição clínica e gestão de recursos’, que está sendo implantado, desde 2017, no Sofia e em outros hospitais pela PBH e visa reduzir custos, identificar desperdícios, efetuar melhorias nos hospitais, diminuir a permanência, melhorar o giro de leitos, reduzir internações potencialmente evitáveis, reduzir as readmissões hospitalares e aumentar a segurança assistencial.

Movimentos em defesa do Sofia

A mesa “Fortalecimento e ampliação da participação social para o Hospital Sofia Feldman” reuniu conselheiros de saúde, voluntários e voluntárias e grupo de mulheres e ativistas em defesa do Sofia. A assistente social, Gislene Nogueira, abriu a mesa lembrando que “o Controle social deve fazer um balanço. Que rumos tomar? Temos que pensar nas armadilhas que estamos vivendo, não ter ingenuidade neste contexto. Que Sofia queremos? Temos que discutir o financiamento do SUS e a participação da comunidade, que é muito importante”.

Pollyana do Amaral, do Coletivo Parto do Princípio e  Grupo Ishtar, pontuou: “Este lugar é referência para nós, aqui aprendemos sobre humanização da assistência. No bom parto nascem cidadãs. Quando a mulher protagoniza no parto, ela se torna protagonista na vida.” Se colocou preocupada com a fala da representante da PBH, Jomara Silva quando ela questiona a diretriz ‘porta aberta’ do Hospital Sofia Feldman e quando diz que ‘não adianta ter eficiência sem segurança’. “Vejo com muita preocupação a PBH falar que ‘o que não está pactuado, não pode atender’. Se o que está pactuado não é a porta aberta, onde está escrito isto? O Sofia é pioneiro em tudo, na gestão, segurança, assistência, eficiência. Jomara falou que não adianta ter eficiência sem segurança. O Sofia já mostrou que é seguro e eficaz. Para ela, “Porta aberta” piora a qualidade da assistência, como assim?”

Uma fala visceral

Joelma Lima é usuária do Sofia, foi assistida lá por duas  vezes e fará o mesmo caminho no terceiro filho. “Escolhi o Sofia, a melhor maternidade do Brasil, não tenho dúvidas. Minhas falas são viscerais, devido às experiências que tive lá. Penso em outras mulheres. Sou do Vale do Jequitinhonha, como uma mulher pode deslocar 300 km e não ser atendida? Se não se assegurar a assistência no Sofia que atua há mais de 30 anos, as mulheres não terão a oportunidade de se empoderar. Imaginem como as mulheres ficarão desguarnecidas sem o Sofia. As três esferas financiam o Sofia?” Afirma: “O Sofia fica apenas apagando o incêndio que não foi ele quem provocou. Nós vamos ter que enfrentar é a nossa gestora, a prefeitura”.

Conselhos pedem mais participação

As conselheiras do Sofia Ana Paula Miranda e Marília Aparecida chamaram os trabalhadores a participar nas reuniões do Conselho Local de Saúde toda terceira sexta-feira do mês. Sr. Romeu Gomes solicitou à diretoria a volta de um dos programas da ACAU HSF, o Apoiador Social. “Precisamos ficar dentro do hospital 24 horas.” Dona Evelina, da ACAU HSF reafirmou: “Temos que ser mais unidos, somos parceiros, não podemos deixar o barco afundar. Estamos ali para ajudar”.

100% SUS. Amém!

Edson dos Santos, Primeiro secretário da mesa do Conselho local, também se disse preocupado com a fala oficial da prefeitura.

“Fiquei triste com a fala da Jomara. Por que me assusta? O que está sendo atacado é o modelo do Sofia, o modelo não é padrão e nem comercial. Não podemos ser ingênuos quando eles vêm com a fala de que não é político e vão para a mídia mentir, parecem que são salvadores da pátria. Nossa luta é com a prefeitura, que é o gestor público. Estão em dia com o quê? Mais de 38% das mulheres são de BH. E aí? Qual a contrapartida para o Sofia?  O SUS tem como princípios a universalidade e a integralidade, não podemos aceitar esta fala fria, que quer fechar portas. Sofia é 100% SUS, amém.”

A conselheira Mônica Guimarães fechou a mesa cantando uma paródia da música da Escola de Samba Beija-Flor, “Ó pátria amada, onde andarás? O Sofia já não aguenta mais” e emocionou a plateia.