Quem foi Sofia Feldman?

Agradecemos a autora.

Carta a uma avó desconhecida

Clara Feldman**

A Sofia Feldman Ao Hospital Sofia Feldman

“Ei, vó,

Estava de encontro marcado com você e não sabia.

Eu, que nunca tinha te encontrado, que cheguei quando você já tinha partido (nunca soube se com pneumonia ou cardiopatia) e te conhecia só na parede do escritório do meu pai. O retrato em preto e branco envelhecido, o olhar triste, traços fortes em que reconhecia o meu nariz.

Eu, que escutava nos discursos do seu filho (e foram tantos, nas formaturas em que era paraninfo) sempre a mesma frase com a qual ele te homenageava, dizendo de um anjo que velava seu sono. E eu te via como um anjo mesmo, pois que, em carne e osso, nunca te vira.

E, não tendo te conhecido, nem te chamado de vó, nem me assentado no seu colo, nem te visitado nas tardes de domingo, guardei na memória frases soltas, colhidas aqui e ali da boca de seus filhos: “Sua avó casou-se com seu avô num casamento arranjado, foi arrancada da família na Palestina e veio para o Brasil, arrastada. Perambulava nas noites de insônia pelas ruas do Barro Preto, fez de sua casa uma pensão para sustentar a família, costurava casacos de pele que eram entregues aos fregueses pelo filho José (a pé, pois não tinham dinheiro para o bonde). Aqui criou seus filhos a duras penas. Mas, felizmente, o tempo ainda lhe concedeu o orgulho de ver seu menino tornar-se médico. Desarranjou o casamento arranjado e enfim morreu, longe de sua terra e sua gente.”

E, quis o destino que aqui se construísse um hospital batizado com o seu nome. Um hospital que acolhe as mulheres em um momento supremo – o nascimento do filho – no mais natural e humanizado parto de que se tem notícia. Com a sua ajuda, vó, tenho certeza – seu espírito paira entre as paredes coloridas da Casa de Parto do Hospital SOFIA FELDMAN.

E você, vó, enquanto costurava casacos e servia marmitas na rua Paracatu, não podia imaginar uma coisa dessas – quase um século depois, seu nome dito e bendito tantas vezes por tanta gente!

Pois é, vó, quem diria, nessa véspera do Dia das Mães, sem marcar encontro, te encontro. Os enfermeiros apresentando belas imagens do Hospital que leva o seu nome, e este pronunciado com orgulho por gente que nada sabe a seu respeito, nem mesmo o pouco que eu sei.

E, por um segundo, me conecto com você no sobrenome, na raiz, no nariz. Sorrio um sorriso de cumplicidade, o mesmo que vejo na boquinha do meu neto quando me vê. E somos só nós duas sabendo quem somos neste auditório, toda essa gente à nossa volta gritando seu nome, sem perceber o nosso encontro. E eu, já avó, viro sua neta, me assento no seu colo e digo enfim ei, vó.”

* Por entendermos que este texto responde a muitos dos questionamentos que nos chegam, decidimos publicá-lo neste espaço.
** Clara Feldman é psicóloga e escritora.